Em 40 anos quantas inovações ocorreram nas telenovelas? Eu só lembro de três: cores, botox e casais gays.
Aí tropeço nessa entrevista do Aguinaldo Silva na Folha. Entre um monte de outras irrelevâncias, um último questionamento da reportagem:
“Folha Online- Faça um balanço final dessa sua trama e suas muitas repercussões.”
E trecho da resposta do autor:
“…Mas foi sem dúvida a mais radical de todas as novelas. Por isso, no começo, ela causou tanta estranheza no telespectador e tanta indignação na mídia. Ela desmontou, um a um, os conceitos tradicionais do folhetim televisivo, e assim deixou clara a possibilidade de se achar outros caminhos para o gênero. Eu podia ter feito mais uma das minhas novelas habituais, e isso seria garantia de sucesso. Mas preferi correr o risco. Foi difícil.”
Radical? Indignação? Desmontou conceitos tradicionais? Mas em que mundo vive esse cara? A novela é praticamente idêntica a qualquer outra, trocou só umas polêmicas e inseriu novas abobrinhas. O fato de não ter “caído no gosto popular” logo de início é porque simplesmente o povo cansou do formato, mas ainda não se deu conta disso, tanto que esse problema vem ocorrendo em quase todas as novelas do horário. Lembre aí quantas vezes você já leu manchetes do tipo “Laços de Macarrão estréia com X pontos a menos” ou “Meu Cupuaçu, minha vida patina no Ibope”.
O diabo é que por falta de outras opções e inércia contemplativa, a maior parte do público não muda de canal, começa a assistir meio que sem querer e aí, quando se dá conta, já foi pescado pela mesmíssima história de novo.
Isso está mudando. Aos poucos, mas está. Nos fins de 85, começo de 86, os últimos capítulos de Roque Santeiro (do próprio Aguinaldo Silva) registravam coisa de 90 pontos de audiência. Pouco mais de 20 anos depois, a média das 8 é de 45 pontos. Claro, o número de opções de entretenimento doméstico ao alcance do brasileiro hoje é muito maior do que na época da Viúva Porcina, mas toda essa queda não é apenas reflexo disso, mas também um sinal de que o formato já estufou o saco, basta notar a perda de influência cultural que a novela deixou de ter.
As roupas da protagonista ainda ditam moda na periferia, mas as mulheres das classes mais abastadas preferem se espelhar numa Angelina ou Gisele da vida.
Há 20 anos todo homem sabia o nome de uma das atrizes que estava na novela porque ela saía na capa da Playboy e a edição parava o país. Hoje a revista talvez movimente a oficina da esquina, mas os engravatados dos andares mais altos estão mesmo é interessados na sex tape de uma atriz famosa que vazou na web ou no e-mail com as fotos que a universitária gostosinha fez com o namorado traído.
Voltando à Folha e ao seu Aguinaldo, hoje ele ainda se sai com essa:
“Aguinaldo Silva diz que terremoto prejudicou “Duas Caras”
“”No exato instante em que a novela começou, a terra tremeu e fez todo mundo sair de casa correndo, depois de desligar a TV, é claro”, escreveu Silva.”
Não, eu não li isso. Sério, você mora em São Paulo? Sentiu o tremor? Eu senti, mas mal percebi, voltei à tela do computador 15 segundos depois.
Desde que o ser unicelular evoluiu para esse hominídeo bípede de hoje que o maior problema humano é se levar a sério demais.
—
Plus 1: 11 dicas para se virar em uma novela
Plus 2: Você vê na novela, mas não no vizinho
Pitacos recentes