Arquivo para Outubro, 2007

TIM Festival 2007

Como estragar um festival de música muito aguardado em alguns passos.

- Na entrada, proíba objetos potencialmente perigosos como câmeras digitais. Cause um belo incômodo ao seu público forçando quem levou sua máquina a ensacar a mesma e deixá-la sob a responsabilidade do evento em uma tenda muito pouco confiável. Aliás, por que deixar as pessoas fotografarem/filmarem o show, não é mesmo? Ainda bem que difusão de conteúdo produzido por usuário é algo que ninguém liga, não tem a mínima força como mídia e, convenhamos, qual o problema em deixar uma câmera de mil reais em um saco ao lado de outras duas mil câmeras em um festival com público de 20 mil pessoas? Ora, pessoal mimado dos diabos, vou te contar.

- Iniciar o evento às 6h da tarde de Domingo e encerra-lo às 5h da manhã da Segunda é uma ótima idéia, pois a imensa maioria do público não se importa em passar 10, 11 horas esperando apresentações musicais. Ah, você tem que trabalhar, é? Deixe de ser maricas, num guenta? Bebe leite!

- A infraestrutura da arena não precisa ser das melhores, afinal, é sempre muito divertido passar 45 minutos em uma fila para comprar qualquer coisa.  Água não é um artigo essencial, então não compre em grande quantidade. E lembre-se: cerveja quente é tendência.

- Se estão programados 6 shows, não planeje construir dois palcos. O ideal é socar todo mundo no mesmo tablado, assim o processo de montagem/desmontagem do cenário e instrumentos de cada banda demorará cerca de uma hora ou mais, atrasando toda a programação e fazendo a felicidade do seu público que, como já concluímos, não liga para tempo de espera e nem para o trabalho no dia seguinte.

- Ainda falando dos shows, qualidade do som é frescura. Mande as bandas subirem no palco e deixe para fazer a equalização durante a apresentação, assim todos os shows serão surpreendentes. “Uau, agora ouvi a guitarra!”, “Nossa, o vocalista tem voz!”, “Quando aumentarem a bateria essa galera vai sair do chão, espera só”.

[ 'vamos focar apenas nos shows' mode on]

- Spank Rock. Ninguém liga pra primeira banda, nesse momento ainda estávamos nos aclimatando ao ambiente e fazendo piadas infames sobre o figurino de algumas pessoas presentes.

- Hot Chip. Do caralho, mas não me mexi porque me sinto ridículo dançando. Falha técnica de 20 minutos broxou todo mundo, apesar disso, eles voltaram e conseguiram reanimar o povo.

- Bjork. Dentre os motivos que me fizeram encarar o evento, essa moça não estava nem entre os 400 principais. Eu já sabia que acharia chato, o que não esperava é que ela despertasse em mim até mesmo um improvável sentimento de religiosidade, pois com 15 minutos de apresentação eu já pedia pelo amor de Deus que aquilo acabasse.

- Juliette & The Licks. Showzaço prejudicado, mas muito prejudicado, pela péssima qualidade do som. Funcionaria melhor em espaço fechado para umas mil pessoas. É aquela apresentação pra quebrar garrafa, arremessar cadeira, arrebentar o banheiro, levar uma bifa da namorada por mau comportamento e, depois, invadir o palco, dar um tapa na bunda da vocalista e mergulhar de cabeça na platéia.

- Arctic Monkeys. Aqui o motivo que me levou até o local. O relógio marcava pouco mais de duas da manhã, os telões estavam apagados (e possuo apenas 1.69 de altura, ou seja, sem um telão é impossível enxergar qualquer coisa), o som continuava uma bosta, mas foda-se, agora era O Momento, mas…é que…bem, eles fizeram o show que se esperava deles: “oi, boa noite, vamos tocar algumas músicas exatamente do jeito que elas foram executadas no disco e, assim que acabarmos, vamos embora, ok?” E assim foi, curtinho, 40 minutos, tchau.

- The Killers. Seria facilmente o melhor show do festival, talvez até tenha sido, mas eles entraram no palco às 4 da manhã, eu estava em pé desde às 6 da tarde, com fome, com sono e, além de tudo isso, não sou fã do grupo, então qualquer avaliação seria mal feita. Fui embora na metade.

[ 'vamos focar apenas nos shows' mode off]


Rápido Ps1: a empresa organizadora do TIM Festival 2007 foi a Dueto Produções (só achei esse site aqui e em manutenção, não sei nem se é o deles mesmo). No próximo grande evento que você for, fique ligado em quem está organizando, sendo a Dueto, tô fora.

Rápido Ps2: esse final de semana refleti sobre uma questão até então jamais abordada em minhas filosofadas comigo mesmo. Bolinho, sim, um bolinho de bacalhau, por exemplo, nada mais é que o feminino de bolinha. Sim, uma bolinha de gude, de feltro, de lã, avelã, zum de besouro um imã? Alguém comeu sua irmã? Sim, aquela anã. Filosofia meio vã? Sim, maçã.

Notícias desse mundão de meu deus

Não tem como competir com a realidade.

Leia o trecho abaixo extraído dessa notícia no G1, não vou assinalar nada porque confio no seu poder de observação, caro leitor.

“A fachada da farmácia Droga Raia, por exemplo, na Praça da Sé, que fica em um edifício tombado construído na década de 30 ganhou pastilhas coloridas azuis e verdes. A síndica do prédio, Dúlia Sguaçaba, disse que todos os proprietários de salas e lojas foram avisados que não poderiam mexer na fachada do local sem autorização da prefeitura.”

E assim segue a sexta-feira.

161

Achei que ficaria imune ao meme da página 161, mas ele veio parar aqui por meio da brother-de-sábado-à-tarde Marina Santa Helena (ah, esqueci de te avisar Marina, mas achei uma lojinha, justamente de roupas, na Lapa com o nome Santa Helena, e agora?).

Voltando ao assunto principal, a mecânica deste meme é:
1 – Pegar um livro próximo (apaguei o parêntese original do meme porque ele ofendia minha inteligência);
2 – Abrir na página 161;
3 – Procurar a 5ª frase completa;
4 – Postar essa frase em seu blog;
5 – (apaguei o quinto passo pelo mesmo motivo que apaguei o parêntese do primeiro item);
6 – Repassar para outros 5 blogs.

Na minha mochila, neste momento, carrego Conectado – O que a internet fez com você e o que você pode fazer com ela.

É, eu sei, nada divertido, é praticamente um livro técnico.

Então, a 5ª frase completa da página 161 diz:

“O senso comum diria que os produtos anunciados em Whyville (http://whyville.net) devem ser compatíveis com as possibilidades de consumo de pessoas entre oito e quinze anos de idade.”

Não sei você, mas eu prefiro porquinhos capitalistas fofinhos tentando vender coisas para os filhos – que não terei – do que padrecos ou sacerdotes de outras religiões convencendo-os a temer um amiguinho imaginário caga-regra (essa minha mania de escrever parágrafos longos e quase sem vírgulas ainda vai me causar um deslocamento de retina).

Ouquei, agora os nobres colegas escolhidos para segurar a batata, digo, o meme são (tambores rufam, tochas se acendem, orangotangos vestem camisas do São Cristóvão, Vera Fischer depila-se com uma cimitarra persa):

- Fran (cine, eu juro jamais fazer a piada “é a de Curitiba?”)

- Kandy (que passou por aqui hoje e tomou um café)

- Maíra (só porque ela declarou que não gosta desse papo de meme)

- Fanny (sempre nas quebradas aqui dessa joça)

- Sarah (só pra sacanear e não perder o costume)


Plus a mais: Vi no Twitter da Anna Margarida e faço minhas as palavras dela sobre o vídeo abaixo – “Não é horrível pelo cover, mas pelo air guitar da Celine Dion”.

Beta da recepção

Eu tento ser simpático
Dou bom dia com sorriso
Recebo um olhar pra baixo

Já deixei flor, pedi ligação
Fiz café, ganhei um carão

Do Jorge Ben que te dei
Fizeste um Zé pretinho
Do Chico que li, várias conversas
Nenhum carinho

Quando surge o alviverde
Me sinto impotente
No banheiro um pensamento
Me aguarda contente

(refrão)
Beta da recepção
Teu assunto é só o verdão
Edmundo, Marcos, Mustafá

Tentei te conquistar
Mas chega de inventar
Teu negócio é a Suely

George e o táxi

Ainda amargando a falta de um veículo automotor próprio, utilizo com bastante freqüência os táxis como meio de locomoção para o entretenimento noturno. Determinada noite, algum tempo atrás, a namorada – em leve pileque – mal entra no veículo e pergunta retoricamente.

- Moço! Isso é George Michael?!

- É sim, senhora, George Michael!

- Ai, aumenta? Eu adoro essa música…how can I help youuuu, please let me try toooo, i can heal the painnnn…

Divagando sobre a situação, pensei na cena ocorrendo com a namorada em TPM.

- Moço! Que diabo é isso?!

- Er…é George Michael, senhora.

- Ai, vai à merda? Eu odeio essa música…how can i help youuuu? Abaixando essa porra agora!

Agora o mesmo caso trocando o artista e a atitude do taxista.

- Moço! Isso é A-HA?!

- É sim, amiga, bate!

- Ai, aumenta? Eu adoro essa música, canta comigo! take on meeeee, take me on…

- I’ll be gone, in a day or twoooooo…

Outro artista, outra atitude.

- Moço, isso é merengue? É lambada?

- Não senhora, é Chiclete com Banana!

- Ai, dá pra trocar, é que…

- Vamo lá, quero todo mundo comigo! Vista sua saia bem rodada com a blusa decotada que lá vem a batucada levantar poeira, eira…eu quero fazer muita zoada se a noite é enluarada bota a lenha na fogueira que hoje eu vou te queixar, queixar…

Toscos e tranqueiras

O tosco me atrai. Sou apreciador da tosqueira desde muito novo, mas era uma manifestação inconsciente do que viria ser um gosto pessoal dos mais refinados.

Ainda criança, dois filmes fundamentaram a base da minha toscografia para o resto da vida.

The Warriors – Os selvagens da noite (o subtítulo em português é um plus tosqueante para qualquer filme) de 1979 é uma pérola trash das mais cultuadas no mundo todo. Freqüentemente, era o filme exibido no melancólico Domingo Maior da Globo. A trama, como você talvez lembre, girava em torno da gangue de rua novaiorquina chamada The Warriors e sua agoniante tentativa de retorno do Bronx para Coney Island, na região metropolitana da Big Apple. Injustamente acusados de assassinar o líder dos Riffs, Cyrus, durante uma grande reunião de gangues, os guerreiros passam a ser perseguidos por todas as outras turmas marginais da cidade. O charme da película só é completo quando você assiste a versão dublada em português, na qual, em uma inteligente sacada, as gírias da bandidagem americana foram substituídas por termos do jargão malandro carioquês. Crássico.


A mitológica cena do líder dos Rogues chamando os Guerreiros pro quebra-pau. Dublado, claro.

O ultra-referenciado, idolatrado e sacramentado Monty Python e o Cálice Sagrado foi o outro grande marco tosco da minha existência. Vi pela primeira vez com uns 9 anos em VHS, legendado, ainda sem entender a dimensão daquilo tudo. Não fazia a mínima idéia de quem eram aqueles caras e de como eles fariam toda a diferença no meu senso de humor futuro. Tudo bem que muito antes, em 1966, Mario Monicelli, filmou o fantástico O Incrível Exército de Brancaleone, mas o Monty Python foi o grupo pioneiro na descoberta da estética tosca em escala industrial, do uso do tosco de maneira planejada e estratégica. O cálice é pra ver e rever, legendado e, assim como qualquer boa tosqueira, a versão dublada em português também.


Não é uma das cenas mais lembradas do filme, mas está aqui porque…


…essa versão da mesma cena em lego é genial.

Já na pré-adolescência, desenvolvendo meu gosto pelo rock, o Iron Maiden fez parte da minha formação como homem (e leitora, caso o seu namorado/noivo/marido não tenha gostado de Iron Maiden na adolescência, separe-se já antes que você o flagre na cama com o Jorginho, seu cabelereiro). Apesar das vendagens estratosféricas de discos, grandes turnês e milhões de libras, dólares e ienes no bolso, o Iron jamais conseguiu produzir um único clipe capaz de receber o adjetivo bom. Todos, sem exceção, são toscos, feios, de mau gosto e, por isso mesmo, divertidos. Esse aí em baixo é de 1990, uma música de pouco sucesso chamada Holy Smoke.


Nesse post do ano passado, postei uma outra anedota do Iron em que uma mulher-pássaro prateada bota um ovo.

O Iron, assim como The Warriors, é um caso de tosco roots. É o tipo que acredita naquilo que está fazendo e que, mesmo com milhões de referências culturais de bom gosto disponíveis para consulta nos mais diversos meios, acaba produzindo podreira porque nem imagina como fazer de outra forma, pois não adianta entregar um Stradivarius pro pagodeiro Belo tocar.

Em propaganda, a ocorrência do tosco de raiz também é muito comum. Veja o imperdível exemplo abaixo.

Mas cuidado, o caso acima merece atenção maior. Pode não se tratar de um tosco roots (mas acredito que seja). Visando baratear custos de produção e sabendo do potencial de sucesso de uma boa tosqueira, muita gente tenta produzir algo tosco falseando uma ingenuidade que aquela idéia não possui.

Nessa categoria podemos encaixar, por exemplo, o Latino. Um tosco mainstream que sabe muito bem o que está fazendo e não soa genuíno justamente por causa disso: sua arte exibe uma toscalidade que não se admite como proposital.

Não era o caso do sumido cantor Falcão. Ele também era um tosco mainstream, mas sua opção comercial pelo tosqueira não era disfarçada, pelo contrário, era um orgulho escancarado.

Já na internet, uma realidade involuntariamente escondida pela grande mídia veio à tona: o mundo é tosco.

Passeando rapidamente pelas redes sociais, em especial Orkut e Fotolog, percebe-se claramente uma maioria de usuários com perfis de composição essencialmente tosca. São fotos na praia com intervenção de frases em verde-limão, o texto do filtro solar colocado como about me, pretensas modelos posando em casas decoradas por móveis tubulares, imagens do churrascão do final de semana, baleias vestindo biquínis, leões-marinhos trajados de regata, gatinhos fofinhos, gifs animados, coisas pulando, coisas brilhando, uma overdose de tosqueira.

A banalização do tosco tira um pouco o charme do gênero. É cada vez mais difícil impressionar um fã do estilo, pois atualmente já vimos de tudo, seja no campo do tosco roots-ingênuo-de-raiz como também na seara do tosco-hermes-&-renato-wanna-be.

Ah, sei lá, vou comer.

Rápidas, rasteiras e sem interesse

Ontem, aqui em Sampa, aconteceu um tal show “Tributo contra o Tributo”, organizado pela nacionalmente desconhecida Frente Nacional da Nova Geração – novidade política da cena reaça paulistana – e pela Fiesp. O evento pretendia conscientizar e pedir apoio da população para a causa do fim da CPMF e, para isso, reuniu KLB, Zezé di Camargo & Luciano, Fresno, Netinho (o do pagode, não o esquecido do Axé), Nando Cordel, NX Zero, Falamansa e Ao Cubo. Se essa turma está contra o imposto, estou quase decidido a me posicionar a favor. Será que o evento, na verdade, não seria uma grande conspiração pela manutenção do imposto? Eu, por exemplo, pagaria pra não escutar esses caras e ainda daria uns 25 centavos extras para nunca, pelo resto da minha vida, jamais ter alguma informação adicional a respeito de quem diabos são Nando Cordel e Ao Cubo (ok, o Nando eu sei quem é, ele compôs aquela merda que o Caetano regravou uns 10 anos atrás, “quando a gente gosta / é claro que a gente cuida…”[o compositor desta porcaria foi o Peninha, como corrigiu Pedro Nunes, chapa deste blog. Ou seja, Nando Cordel passou a ser ainda mais insignificante]).

“Eu vou beber. Beber até morrer. Beber pra esquecer. Beber pela vida que não consigo ter. Ser, fazer, combater, merecer. Lutar pelo que não vai voltar, amar uma causa a conquistar.” Gostou? É filosofia barata que pode ser feita em menos de 2 minutos. Dá pra fazer música caso você tenha alguma noção de métrica e rima. Eu não tenho.


[trecho de antigo e-mail para uma amiga]

Ananindeua é a segunda maior cidade do Pará e possui 480 mil habitantes. Sua economia vive basicamente de motéis, botecos, pequenas mercearias e concessionárias de automóveis muito grandes que não conseguiriam terrenos do mesmo tamanho por preço tão baixo na vizinha Belém.

O prefeito de Ananindeua é o jovem Helder Barbalho, herdeiro político de um dos coronéis do estado, o deputado federal Jader Barbalho.

Como parte de sua estratégia de formar um curral eleitoral na cidade (em Belém os Barbalhos têm grande rejeição), Helder montou um time de futebol batizado com o nome do município. O mascote da equipe do Ananindeua é uma tartaruga. Nos últimos anos o time vem fazendo sombra aos tradicionais clubes da capital, Remo e Paysandu, tanto que já disputou final de turno do campeonato paraense contra a Tuna Luso Brasileira.

Os motéis, grande atração da cidade, são frequentados principalmente por casais mais jovens que ainda moram com os pais e não têm dinheiro para freqüentar estabelecimentos semelhantes em Belém, um pouco mais caros e sofisticados, mas só um pouco. Os principais empreendimentos moteleiros do município são administrados por empresários de origem oriental (o Pará é a segunda maior colônia japonesa do país, atrás apenas de São Paulo). Entre eles podemos destacar o Sagitário (3 horas por cerca de 30 reais), Domus (o mais limpinho, mas não aconselho usar as piscinas), Novo Mikonos (ótimo custo-benefício), Zig-Zag (ótimo custo-custo) e Fujyama (er…não conheço). A maioria dos estabelecimentos fica na avenida Mário Covas (antiga rodovia do Coqueiro, rebatizada com o nome do ex-governador tucano quando este vestiu o paletó de madeira).

No caminho

- Tá quente, heim?

- …

- Maria Eliza, eu disse que está quente hoje.

- Se você já disse…

- Você não vai dizer nada? Concordar, discordar, comentar que está mais quente que ontem?

- Era uma afirmação ou uma pergunta retórica, certo? O que você quer ouvir? Se você já definiu que está quente, não tenho nada a acrescentar, que saco!

- Mas, mas…era só pra puxar assunto.

- E você não tem absolutamente nada mais interessante para instigar uma conversa, Carlos Alberto? Olha, o planeta tem cerca de 4 bilhões de anos. Durante esse tempo, o clima sofreu inúmeras modificações dependendo do que acontecia geologicamente por aqui, mas o tempo que estamos eu, você e a nossa espécie nesse mundo, não nos permite fazer muito mais do que 4 observações relevantes a respeito do assunto, que a meu ver são: está quente, está frio, está chovendo ou está fazendo sol…

- Mas, Maria Eliza…

- Não me interrompe, Carlos Alberto, porra! Porque se você não consegue formular UMA droga de um comentário meteorológico mais profundo do que os 4 conceitos que acabei de listar, você deveria calar essa boca e continuar dirigindo esta merda!

- …

- Humpf!

- 36 prestações…36 prestações, sabia? Essa merda que estou dirigindo foi dividida em 36 prestações das quais eu só paguei 4!

- E?

- São mais 32 meses nos quais me sobrarão mais ou menos 25 reais por mês para gastos com outras coisas que não são obrigações, com esse dinheiro eu posso pedir uma pizza ou comprar três revistas, no máximo um livro, ou alugar 4 filmes o que…

- E além do churrasco pelos 10 anos de formatura da sua turma de administração com ênfase em comércio exterior onde diabos você quer chegar com essa conversa?

- Não me interrompe, Maria Eliza, caralho! Porque durante mais 32 meses eu vou ter 25 reais mensais pra tentar arranjar outros assuntos com você que não sejam uma conta ou a porra da maldita expectativa por uma frente fria uruguaia que vai deixar a temperatura um pouco mais agradável para que eu suporte a sua presença nesse mundo!

- Argentina, Carlos Alberto, as frentes frias são argentinas, o Uruguai é do tamanho de Sergipe, não cabe uma frente fria lá…

- Por favor, Maria Eliza, vamos ficar calados.

5 minutos depois.

- Carlos Alberto, você acha que o Antonio Ermírio de Moraes sabe a temperatura que está fazendo hoje?

- Sei lá Maria Eliza, não combinamos ficar calados?

- Eu não, quem falou nisso foi você…mas então, e o Antonio Ermírio?

- Ah, sei lá, ele deve saber, ricos sabem de um monte de coisas, por exemplo, quem acerta na loteria sabia seis números e ficou rico, mas…por que você tá perguntando isso?

- Porque acho que esses assuntos de clima são coisa de quem não faz diferença no mundo, como você, um João Ninguém apertado pra pagar um Corsa 98/99 em 36 meses. Tipo, enquanto seu carro bóia na marginal e você conclui que está chovendo, o Antonio Ermírio está pensando em como comprar o Equador hoje e revender na quinta com uma margem de lucro de 45%.

- É, analisando pela lógica dos meus 25 reais mensais de superávit, faz sentido. Ele tem muito mais dinheiro pra diversificar a pauta das conversas cotidianas do que eu…droga, era tudo tão mais fácil quando eu e você falávamos apenas sobre quem pagaria o cinema ou quais lugares do apartamento ainda não havíamos transado.

- E olha que você morava em um cubículo.

- Pois é, não tinha espaço pra falar do tempo.

A tropa, a elite e o tapa na cara

O leitor Rafael Passos, do Rio (pá, pá, pá, pum!), mandou e-mail perguntando se já vi e o que achei de Tropa de Elite.

Eu vi, mas não estava a fim de achar muita coisa. Minhas opiniões sobre segurança pública eu já postei por aqui e, apesar de ser um tema pelo qual me interesso bastante, é algo que tem me cansado. É uma questão nacional que considero praticamente insolúvel, coisa para uns 30 anos, se começássemos agora. O problema é que nunca começamos.

Mas, sobre o filme e tudo mais, umas dropadas:

- Como filme policial é imperdível. Roteirão, direção correta e ao menos três atuações memoráveis: André Ramiro (Matias), Caio Junqueira (Neto) e, você já está careca de saber, Wagner Moura (Cap. Nascimento) – o mais novo integrante do hall da fama dos personagens pop nacionais.

- Alguém precisava mostrar o lado da polícia na questão toda sobre a segurança pública, o que sente um policial honesto frente ao cenário de corrupção que encontra e o que a adesão, ou não, a essa realidade pode gerar, no caso, gerou os delicados policiais do BOPE.

- Na minha interpretação, o diretor não acha nada daquilo bonito. Nem a corrupção generalizada na “polícia convencional” e nem o “heroísmo” bárbaro do Batalhão de Operações Especiais. O problema é que boa parte – talvez a maioria – do público não vê as coisas desse jeito, e pode terminar o filme com a (tosca) convicção (reforçada) de que a solução é invadir favela, torturar suspeito e matar bandido. Você mesmo pode pensar assim, mas não se culpe tanto, a cultura nacional colocou isso na sua cabeça desde que você era moleque e seus pais achavam que estávamos melhor nas mãos dos militares (só pra ilustrar esse parágrafo, veja isso aqui).

- Não morro de amores pela classe média, mas novamente ela é apontada como maior culpada pelo problema e de maneira tosca, pois na visão do Capitão Nascimento, o playboy maconheiro é o cara que financia o tráfico. Correto, o Maurício realmente é quem abastece a carteira do chefe do morro, mas achar que se esse cara parar de comprar droga o problema estaria resolvido é uma visão simplória da questão. Ou alguém realmente acredita que a absurda desigualdade social e a bagunça institucional brasileira não produziriam outras formas de criminalidade? Nos EUA e na Europa consomem-se muito mais drogas do que aqui e ninguém nunca ouviu falar de traficas londrinos mandando fechar o comércio ou que uma “facção criminosa que domina presídios” parou Los Angeles.

- Mas, mesmo discordando da visão de culpa do Capitão Nascimento, acho importante ela ser mostrada, pois revela e abre para a discussão como pensa um policial médio ou uma cabeça reacionária.

- Não sou desses chatos que gostam de proclamar que “o livro é melhor” mas, neste caso, fico com a versão impressa (“Elite da Tropa”, que não é a base do filme. São pesquisas diferentes, mas que tiveram as mesmas fontes, por isso as grandes semelhanças). No livro, a truculência policial não é confundida com heroísmo e, lá pelo final, o leitor percebe que o antes incorruptível BOPE já não anda mais tão nobre assim.

- E uma dica pra você que fuma cigarros diferentes desses que vendem na padaria: do jeito que o filme tem sido efusivamente aplaudido pela sociedade, existe a possibilidade de ser formada uma opinião geral de que você é o culpado pelo assalto do Luciano Huck e pelos seqüestros-relâmpago na entrada da garagem do condomínio, então esconda bem esse mato aí caso não queira levar uns tapas gratuitos da polícia e ainda ouvir aplausos dos transeuntes do outro lado da rua.

Rápido PS: já que falei várias vezes nele, é com orgulho que faço parte dos links no blog do Capitão Nascimento. Ainda não sei quem é o autor, mas é humor bem acima da média e que não merece boa parte dos leitores idiotas que comentaram em alguns posts por lá.

Rápido PS2: a trilha sonora do filme tem tudo a ver com o contexto apresentado e…só. Mas, como você já deve ter percebido, prepare-se pra escutar a porcaria da música-tema em tudo quanto é lugar.

Rápido PS3: vamos apostar em quanto tempo alguma rede varejista popularesca fará uma campanha alusiva ao clima do filme?Estão chegando as “liquidações de elite” e suas “tropas de preços baixos”, aguarde.

Pixels, mullets e viagens

Lá nos oitentões jogar videogame exigia muita imaginação. A arte da embalagem era fundamental para que sua mente acreditasse que aqueles quadrados porcamente coloridos na tela eram um jogador de futebol ou um carro de corrida.

Nessa época de escassez de pixels, um comercial de TV para anunciar produtos do gênero precisava esquecer o produto e jogar o foco na pretensa experiência de diversão que o mesmo traria. Aí saía isso aí:

Já no começo dos 90, o NES era o videogame líder de mercado no mundo, mas a Sega – com o Genesis, começava a incomodar o reinado da Nintendo, por sua vez já preparando os últimos detalhes do lançamento do seu console de 4ª geração, o Super NES. A indústria dos jogos eletrônicos ainda estava longe de bater a da música e nem sonhava em superar a do cinema.

As empresas de jogos, grande parte dominadas em seus cargos diretivos por geeks da área de TI, ainda não possuíam propaganda criativa, inovadora, impactante e todo aquele quaquaraquaquá. As verbas de comunicação também não eram lá grande coisa e, por cultura corporativa típica de um negócio no qual a concorrência ainda não pegou fogo pra valer, os dirigentes da indústria tropeçavam bastante na hora de conversar com o consumidor.

Veja com seus próprios olhos.

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Anúncios de 1991 da produtora Renovation para o jogo Gaiares (que eu achava uma merda) do console Genesis (conhecido no Brasil e no Japão como Mega Drive, cara leitora que não entende absolutamente nada do assunto).

O jovem que estrela o anúncio…er…bem, assim, eu não sei, tipo…você já deve ter formulado uma opinião sobre os mullets, mas repare também no bigodinho rasteiro ostentado pelo rapaz. Isso é o que acontece quando os caras do marketing se metem em propaganda.

Anúncios retirados deste link. Dá uma olhada na parada, tem mais um monte de porcarias.

E lá pelo meio daquela década a Sony entra no mercado chutando o balde com o Playstation. A tecnologia avança e deixa os jogos cada vez mais complexos, o leque de jogadores é ampliado, a brincadeira começa a atingir a casa dos bilhões. A concorrência teve que se virar para chegar na Sony, famosa mundialmente por sua comunicação vanguardinha que todo ano leva uns leões em Cannes. Os anos 2000 não permitem Mullets.

Playstation 2 - Soldier
Esse é foda. Clica que amplia.

E pra fechar, filme da época da campanha de lançamento do Playstation 3. Na atual geração prefiro a comunicação da Microsoft pro Xbox 360, mas esse da Sony ilustra bem o nível de viagem da turma.

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