Arquivo para Junho, 2008

Mais pessoas

No segundo ano de administração, Mariana deixou o seu CV na Excelence Eventos & Marketing Promocional. Queria ser modelo e parecia ter encontrado uma primeira porta. Começou distribuindo impressos do condomínio Jardim du Boccard, nas manhãs de sábado e domingo, na frente do shopping. Destacou-se e logo foi convocada para as panfletagens noturnas de eventos e baladas. Em um barzinho da moda, quando entregava flyers promocionais de um festival de música moderninha promovido por uma empresa que mexe com telefones celulares, encontrou o ator Paulo Betti em uma mesa. Primeiro achou tratar-se de Antonio Fagundes, mas uma colega mais atenta a corrigiu antes da tietagem. “Oi, minha mãe é muito fã do senhor, tira uma foto comigo?”. No outro dia tava lá no Orkut.

Preston era filho de pais doidões. Mas doidões cafonas, saca? Enquanto outros tipos de pais alternativos nomeavam seus rebentos de maneira mais clássica para os padrões doidivanas como Lua, Cauã, Terra e Gondira, os genitores de Preston decidiram pelo nome enquanto folheavam uma velha revista Manchete. Era o nome de um médico americano, Joshua Preston. Estava lá em uma das páginas médicas que a publicação costumava ilustrar com fotos grandes de abdomens abertos e corações pulsantes.

Mas mentia o Romeu. Não era de comer ninguém, mas sabe como é, não podia fazer feio na mesa. E a Aninha? “Comi, comi sim, tem uns dois meses, fomos pro motel uma noite depois da faculdade dela”. Era cascata, o Beto também conhecia a Aninha e garantia – pelas costas do Romeu, claro – que ela jamais havia fornecido material algum para o rapaz. Naquela noite Romeu havia escolhido o bar, uma merda, era só tiozão com jeito de vendedor de carro usado e puta feia.

Embalagens da minha vida – Cobra do Gelo

Por aqui o Storm Shadow recebeu o ridículo nome de Cobra do Gelo, talvez por ser branco e passar a impressão de que era um bad guy que atuava na neve, tadinho. O codinome tupinambá então era o péssimo “Naja”, enquanto que o original, como diz aí na embalagem, era – o infantilmente muito mais eficaz – “Cobra Ninja”, mas nada disso muda o fato de que os bonecos vilões eram muito mais legais que os bonzinhos.

Nas minhas brincadeiras, o cara aí era sempre o astro principal de histórias cujo enredo básico não mudava muito, uma mistura de Star Wars com o que o final da Guerra Fria me mostrava na TV: “império do mal invade planeta alheio e escraviza criaturas imbecis (invariavelmente playmobils) / mocinhos do bem chegam na bagaça e quebram tudo até libertar os panacas”.

Ídolos e admiração

Há uns dias ouvi uma dessas verdades que publicitário adora proclamar em powerpoint para justificar uma idéia.

Diz que agora as pessoas não admiram mais pessoas e sim marcas.

As atitudes com as quais cada um de nós naturalmente se identifica não seriam mais as provenientes dos grandes da raça e sim a das corporações.

Pessoas com a força iconográfica de Che, Marilyn, Lennon ou Churchill – para ficar só alguns do século XX – não seriam mais fabricadas e teriam sido substituídas por Apple, Converse, Nike e MTV.

Como se um iPod pudesse fazer um discurso desses ou um tênis de corrida fosse capaz de protagonizar isso.

Furadíssima, a teoria esqueceu de levar em consideração que desde os anos 80 o mundo passa por um processo – natural eu diria – de segmentação comportamental em qualquer sentido. Tudo, agora e cada vez mais, é nicho, grande ou pequeno, mas nicho.

Então realmente pode ser mais complicado pra alguém alcançar projeção planetária, mas não quer dizer que não alcance, basta analisar a comoção que causam entre seus fãs nomes como Amy Winehouse, Hanna Montana ou Steve Jobs (olha a confusão entre adoração de marca e adoração de ídolo aí). Todos ícones de nichos, seja lá de qual tamanho for esse nicho, mas ícones e de nichos, sim.

(ok, dá pra dizer que boa parte dos ídolos de hoje são fabricados, mas os do passado, em maior ou menor grau, também foram produzidos sob encomenda industrial ou a serviço de uma ideologia política/religiosa qualquer)

E as marcas também despertam amores de – e apenas – em nichos, também enfrentando dificuldades de projeção, assim como os “ícones humanos”. Ou dá pra dizer que o McDonald’s é unanimidade mundial?

Mas sim, e esse tal amor às corporações descrito na teoria publicitária não é nenhuma novidade no mundo.

Há milênios igrejas despertam até muito mais do que amor entre os seus seguidores/consumidores (vai dizer que a Fé não é um negócio dos mais rentáveis desde o começo dos tempos?).

Séculos antes do nome Google ser motivo de declarações apaixonadas, povos diversos já mostraram devoção pelo brasão dos seus exércitos nacionais ou dedicaram vidas às suas bandeiras.

Se agora uma empresa conclui que existe amor do consumidor pelo seu logotipo é um direito dela, assim como também é direito que ela cultive e incentive essa relação.

Mas é uma pretensão safada vir dizer que isso é algo novo ou que essa paixão por marcas substituiu a nossa admiração por “gente igual à gente”.

A média abunda

Aquelas pessoas que colocam no álbum qualquer foto de praia meia-boca e legenda do tipo “êta vida difíciu” são as mesmas que ainda enviam spam por scrap daquelas festas caídas.

E a turma que responde a provocação da foto “êta vida difíciu” com um “ai, filha da puta, que enveja!!!”, quando solta um espirro, tasca logo no msn aquele complemento “sae gripe deste corpo que não te pertence!!!”.

O bom do mundo ser muito mais médio do que nós imaginamos que ele seja é que, com algum treino e observação, qualquer pessoa pode estar preparada para enfrentar uma situação qualquer e se dar bem.

Save the soap operas, save the world

Sério, essa dos mutantes na Record é foda. Continuo odiando novela, mas aquilo que a tv dos chutadores de santos exibe é qualquer coisa menos uma novela.

Todo mundo por aí fala que a história mistura Lost, Heroes, X-Men, Malhação, Jurassic Park e Bozo no mesmo saco, mas uma coisa é ouvir falar e imaginar que deve ser no mínimo engraçado, outra é você assistir e constatar que não apenas é engraçado como também é desconcertante, pós-tropicalista, pós-joaosinhotrintista e pós-brega.

É uma resposta tosca da TV aberta nacional a tudo aquilo que nos últimos tempos tem mostrado o quanto ela anda ultrapassada, antiquada e longe da realidade.

A iniciativa acaba por acertar o público jovem que não tem lá muita intimidade com as últimas novidades da cultura pop, mas que gosta e tem algum contato esporádico com esse universo (um Lost dublado na Globo aqui, um filme no cinema de vez em quando ali, um piratinha camarada de PS2 acolá).

Por outro lado, os mutantes nacionais também marcam pontos entre os mais antenados. Esses acabam se identificando com a trama pelos seus elementos de humor involuntário, já que as toscas referências diretas a produtos de entretenimento melhor acabados não passam despercebidas.

Ainda não entendi direito o que diabos se passa em toda a história, pois a novela conta com uns 389 personagens entre civis, militares, lobisomens, vampiros, mutantes, espíritos, diversas versões da Bianca Rinaldi e lábios da Babi anabolizados com esteróides.

Saca esse monte de vídeos por aí com versões indianas, turcas, italianas e japonesas para heróis americanos? Pois é, Os Mutantes – Caminhos do coração é exatamente a mesma picaretagem, mas acontecendo em território nacional e num formato familiar a todos nós desde muito antes de Leila matar Odete. Dê uma chance, não perda.

Ò aí um “trailer” de sete minutos da bagaça.

Intervalo

Nessa última quarta, 18 de junho, fui convidado pela Dudinka – agência da minha amiga Marina, a assistir um show de stand up comedy com os web-CQC-stars Danilo Gentili e Rafinha Bastos.

O evento era uma ação publicitária da LG para promover a linha de TVs de plasma da marca. O mote era desmentir, por meio das tiradas cômicas da dupla, supostas lorotas propagadas a respeito dessa tecnologia.

Então, sobre a noite, posso dizer que:

- Gostei dos dois humoristas. O Gentili tem um estilo mais mané e pessoal que acaba gerando uma empatia maior com o público, é o seu amigo que poderia estar na mesa contando como só se fode na vida. Já o Rafinha é mais apresentador, seria o ator que você vê em uma sitcom na TV.

- Mas calma lá, nenhum dos dois é o Seinfeld, como alguns andaram escrevendo por aí.

- Quando o convite pro evento surgiu, imaginei que um inevitável momento-jabá, provável exigência da marca, seria um desastre. Já pensou, o cara parar as piadas pra falar da resolução da TV? Mas enfim, eles conseguiram trabalhar bem essa parte, inclusive ironizando a jabazeira, mas claro que isso foi feito quando o público já estava ganho e riria de qualquer vírgula.

- Apesar de ter entendido que as TVs de plasma não explodem, possuem imagem bacana, widescreen muito legal e duram tanto quanto uma LCD, não tenho dinheiro e nem interesse em adquirir uma delas, mas se você está procurando por uma plasma, compre da LG e explique pros caras que optou pela marca após ler esse post.

- Não, você não ganha nada com isso, mas pode me proporcionar mais uma noite de alegria e esbórnia como foi essa. Se você é meu amigo, sei que ficará feliz por mim.

- A maioria das pessoas continua achando cool tomar vinho, ou seja, cool mesmo é beber cerveja, já que fazer algo que qualquer maioria faz é cafona pra caralho.

- Como não sou adepto da frescura com vinho que reina no mundo, aumento consideravelmente minhas probabilidades de beber bem em um evento como esse, já que a concorrência pelo mé e pela atenção dos garçons é bem menor quando você não quer o que todo mundo deseja.

- Sim, fiquei bêbado e a única reclamação que tenho da noite é que não ganhei nenhuma das TVs que não foram sorteadas no evento.

Um queijim

Ontem na TV um comercial qualquer anunciava um novo sabor – queijo – para um snack já famoso.

Poucas coisas fedem mais que essas porcarias cheias de produtos químicos emulando laticínios.

Quem gosta de snacks sabor queijo devia ser isolado do convívio com a sociedade e privado das benesses garantidas pelo estado democrático de direito. Aliás, cabe a pergunta: que tipo de pessoa com mais de 12 anos pode gostar dessas fedentinas gordurosas?

Mulheres abrem mão do seu charme ao abrir um pacote de cheetos. Homens deixam de lado a capacidade de raciocínio ao retirar um troço amarelo cheddarento de sacos internamente espelhados. Por qualquer ângulo de avaliação, a civilização perde.

Fedor, queijo, fedor. Os salgadinhos que uma sociedade consome dizem muito sobre ela mesma.

Embalagens da minha vida – Didi na Mina Encantada

Didi Mocó Sonrisal Colesterol Novalgino Mufumbo

Você sabe, Os Trapalhões foram engraçados naqueles tempos distantes.

Em 1982, época de ouro deles no cinema, eram lançados dois filmes dos zés por ano. Um foi Os Trapalhões na Serra Pelada. Aí que a Philips, pegando carona na parada e dando um troco em licenciamento pro Renato, lançou no Brasil o jogo de Odyssey Didi na Mina Encantada, maior sucesso do antigo console. O original gringo se chamava Pick Axe Pete, mas como na época os personagens e cenários eram meros quadrados e retângulos coloridos, ninguém ia notar que o Pete estava sendo chamado de Mocó.

Lembro que ao admirar a capa do cartucho, pensei inúmeras vezes no contraste entre a riqueza de detalhes da mina apresentada na embalagem e aqueles pixels quadraduchos exibidos na tela da TV. “Mãe, mas esse é o Didi?”.

Desliguem os servidores! Remarquem a depilação!

Nova frente fria, velhas frases requentadas

“Gente, que frio é esse?”
- É uma estação do ano chamada inverno.

“Ai, hoje é daqueles dias pra ficar em casa debaixo do cobertor.”

- Ok, da próxima vez combine com a frente fria para que ela chegue no domingo de manhã.

“Hmmm, hoje tá bom pra tomar um vinhozinho, né?”
- Não.

“Ah, e um sorvetinho, heim? Hehehehe.”
- Uau, que engraçado! Como hoje está frio pra dedéu, um cara teria que ser muito louco para tomar um sorvete em um clima como esse, afinal, sorvete esfria o corpo, aí tipo, o cara ia ficar com muito frio mesmo, né? Rá, genial!

“O problema nem é o frio, é o vento.”
- Maldito ar que insiste em se movimentar.

“Nossa, tá fazendo 15 graus, mas a sensação térmica é de 8!”
- É o vento.

“Você imagina morar naqueles lugares em que faz -20º graus no inverno?!”
- Imagino. O sistema de saúde deles funciona, a jornada de trabalho é de 5 horas e os salários são bem mais dignos.

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