Arquivo para Outubro, 2008

Picuitchas

Todos os grandes ódios pessoais do planeta se originam de apenas três situações.

1 – Por questões políticas ser obrigado a tratar educadamente um portador de estupidez.

2 – Ser passado para trás em questões sexuais por indivíduo estúpido.

3 – Raiva por ser vítima de gracinha de escritório/churrasco proveniente de pessoa estúpida.

Não importa se é um ódio étnico milenar, crise econômica de alcance mundial ou mortal discussão de conta de bar – “Tá, mas você contou o dézporcento?!”.

Tudo começou naquele powerpoint que mandou o carinha olhar fixamente para a imagem e, segundos depois, receber o rosto da menina do exorcista anunciando um susto com grito estridente.

Gonsales? Sim, aceito.

Preços

As coisas com peito de peru são sempre mais caras que as feitas de frango ou carne bovina. O que me deixa deveras triste, já que do peito de peru sou um fã.

O perverso critério que define a precificação das variedades de carne provavelmente é a cafona lei da oferta e da procura. Mas a coisa poderia ser outra, bem diferente.

Em última análise, por que compramos um artefato alimentício de peito de peru na rua, padaria ou supermercado? Basicamente porque não temos saco, tempo ou como fazer o mesmo em casa, certo?

Partindo disso, é mais fácil criar dentro de casa um peru ou um boi?

Não importa o tamanho do lar, é claro que é um belo e gordo peru é muito mais simples de ter andando pela sala do que um exemplar animal bovino.

Logo, o alimento processado com carne de boi deveria ser o mais caro, pois esse é mais difícil de reproduzir na minha própria cozinha, justifica então que alguém disposto a ter esse trabalho por mim cobre mais pelo alimento.

Seria estabelecida então uma tabela justa de dificuldade de criação versus preço, iniciando na codorna, passando pelo jacaré, hipopótamo e terminando na baleia, animal de difícil adaptação em apartamentos, mesmo que a área de serviço possua um grande tanque.

Os meses

Tenho boa memória, desde pequeno. Lembro coisas de quando eu tinha três anos.

Não sei se por condicionamento de passar a vida toda me gabando dessa boa memória, mas passei a armazenar esses flashes de 3, 4 ou 5 anos em detalhes. Talvez nem lembre deles de verdade, pode ser apenas esse tal condicionamento. De qualquer maneira, acho um absurdo esquecê-los.

Seria um desrespeito comigo mesmo não lembrar das férias em família de 82 (seria 83?) em Fortaleza ou a mesma família reunida, em uma noite de julho de 84, assistindo a abertura dos jogos de Los Angeles em uma casinha na vila, alugada para o verão paraense lá em Mosqueiro.

Nisso a contagem do tempo em meses ajuda muito. Existem períodos do ano muito melhores que outros.

Por exemplo, do fim de dezembro ao fim de março as antenas devem permancer constantemente ligadas para as boas lembranças. É a melhor época de qualquer ano. Lá em Belém é tempo de chuva forte, todo dia, às vezes o dia todo. E nossa, como eu gostava desses dias. O calor dá uma trégua, todos engatam uma segunda marcha e a vida segue mais lenta e galhofeira em um tipo de preparação para a pauleira que fatalmente virá na sequencia.

Então juntando a minha boa memória com os meses, meu trabalho de armazenamento é amplamente facilitado. Tipo, agosto de 2002. Na ressaca da copa, eu estava na mais funda das fossas por causa de um término e tentando tocar uma empresa que abri tempos antes com dois grandes amigos. Setembro de 1998? Fácil, era o auge da vagabundagem universitária de classe média: sem emprego (e sem planos de ter um), era sair das aulas para os bares e passar madrugadas “fazendo trabalhos” com câmera digital que pesava 2 quilos e torcendo para o Pentium 166 do Renato não dar pau enquanto o Corel Draw abria pesados arquivos de 4 mega.

Bem, mas a nostalgia do momento diz respeito a meses que estavam aqui agorinha mesmo. Justamente o janeiro, fevereiro e março desse 2008 que a primavera paulistana se encarregou de levar pra longe.

Logo eles voltam, não há outubro ou novembro que não acabe depois de rápidos 30 ou 31 dias. E dezembro, francamente, não é bem um mês e sim uma transição. Dia 15 ele costuma acabar e geralmente ninguém se importa com isso.

Brilhante

Como evitar o conflito era da sua natureza banana, quando o cara atendeu, ficou mudo e não se tocou que o número do celular já aparecia identificado.

- Fala grande, tudo beleza? Alô…ei, você taí? Algum problema? Alô? Alô?

Perdido, começou a improvisar.

- O-oi, tô ligando pra saber do seu gato, você tá satisfeito com a raça, textura dos pelos, ele mia corretamente?

- Ué, mas eu não tenho gato.

- Ah, então liguei pra mandar você tomar no cu mesmo.

- Como é?

- É, seu mala, filho da puta, some da minha vida, seu merda!

- Cara, você tá bem? Achava que a gente era amigo e…

- Amigo é o caralho! Te fode!

Desligou orgulhoso.

- É isso, o negócio é começar com o gato! Porra, vou ligar agora pra piranha da Ana Selma!

Bando de crises

Não quero mais saber da crise. Acompanhar o minuto a minuto da lambança é inútil.

Um dia sobe, três dias desce. Recorde de alta em um dia. Maior baixa da história. Quebra, não quebra, o estado diz que vai comprar, ninguém compra, ninguém acredita, o estado compra, tarde demais, europeus coordenados, russos salvando a ilha da Bjork, asiáticos se fudendo, presidente latino jurando que o furdunço não chega aqui. Uma grande cagada.

Como não tenho dívidas de longo prazo e continuo separando 4,80 por dia pra usar o transporte que a Marta insiste em dizer que é de rico, prefiro saber da confusão à moda antiga, pelos livros e especiais do Discovery, daqui uns anos, quando é muito mais confortável se informar desses grandes eventos (imagina estar em uma cidade do norte da França em 1944? Sai pra lá, melhor esperar 60 anos pelo Band of Brothers correspondente e saber do negócio com pipoca e coca-cola).

Nunca sabemos quando o Ressaca está morto, mas ainda rola citação por aí. O bródi Gustavo Autran se ligou e avisou: matéria da Bravo sobre a Mallu, nós contamos a primeira piada (passa o mouse no quadrinho “Mar 08”).

Pontas soltas

Ao lado das insígnias automotivas que objetivam tomar o espaço público dos nossos centros urbanos com carros divididos em duzentas milhões de vezes, um dos logotipos que mais se repetem, intervalo após intervalo, é o da Unilever.

É inegável que uma empresa que desengordura cozinhas, enche refrigeradores de sorvete e, entre muitas outras coisas, ainda tenta evitar que as axilas do mundo espalhem futum pelo planeta, precisa se comunicar de múltiplas maneiras com os mais variados consumidores.

Compreensível então que suas mensagens sejam bem diferentes entre si.

Aí a comunicação da linha Dove diz que beleza de photoshop é o escambau. A mulherada precisa mesmo é ser valorizada pelo que é, não importando se pesa o mesmo que um Escort XR3 ou se tem cabelo de sandra sarará de sá. Lindo, é isso aí mesmo, abaixo as fúteis exigências da capa da Nova.

O ruim é que no outro intervalo entra o comercial de Seda mostrando um cabelo feminino produzido pela Industrial Light & Magic ou a Adriane Galisteu em um pedestal, destacando camadas da própria peruca.

Logo depois vem um filme de Axe, engraçado, mas machista e exibindo a torto e a direito o ideal masculino de mulher (que nós sabemos não ter nada a ver com a Ângela Rô Rô).

E sempre lá, a marquinha que identifica a corporação do U patrocinando a mensagem, dizendo pra você “ei, somos nós, os mesmos que falam pra sua namorada que as pelancas dela são lindas como são, mas agora te dizendo que o bacana mesmo é passar isso aqui embaixo do braço e sair por aí comendo o casting da Ford Models, aquilo sim é que são mulheres, hehehe”.

Não sejamos ingênuos. Desde que mercadores persas empurravam tapetes para cruzados que a primeira coisa eliminada quando se quer vender algo é o escrúpulo, mas será que ao menos não dá pra tirar a marquinha lá do cantinho superior direito e deixar só o a marca do produto assinando?

Ah, o consumidor não liga essas pontas, não é mesmo?

É, não liga, mas com a política ninguém também conhece a fundo os detalhes de licitações ou negociatas em troca de apoio, mas mesmo assim o pensamento geral formou na cabeça o conceito de que todo político é safado.

A ficha cai lentamente, mas cai.

Vulgo

Bons apelidos não são artigo farto no mundo. Se todo mundo conseguisse um apelido legal, a primordial função da coisa – a diferenciação por meio de uma alcunha criativa – seria perdida.

Mas tem gente que não se conforma. Por ter nome esquecível, incomum ou constrangedor, não é difícil encontrar quem tenta se autocolocar um apelido.

Sim, parece óbvio que os melhores apelidos surgem espontaneamente, mas vai explicar isso para os inconformados da autonomeação, esses necessitados de estima, desesperados de batismo.

Não incentive essa prática irritante.

Ao notar um Ednílson forçando um Eddie, não aceite e quando precisar chamá-lo, só de sacanagem, carregue bem no “Ílson”.

Ainda pior é quem almeja incluir nesse apelido uma suposta (e geralmente vaguíssima) semelhança com famosos, como é o caso da Carolzinha S.Bullock ou da Paty SPEARS.

Exemplos como esse só merecem respeito se houver coragem suficiente para assumir-se como sósia de celebridade feia.

“Meu nome é Derval, mas pode me chamar de Stênio.”

“Oi, eu sou a Gláucia, agora vou colocar os óculos e…prazer, Luiza Erundina.”

Aí sim.

E mal pago

- Mas ficou ótimo o comercial, acabei de ver no intervalo do Vale a Pena Ver de Novo…

- Er…o cliente acabou de ligar.

- Ah, e aí, devem estar vendendo celular adoidado, não?

- Já receberam um monte de ligações avisando que o asilo não existe mais…há 3 anos.

- Qual asilo?

- O mesmo que o comercial diz que vai ajudar caso você compre um celular deles…

- Então, além de telemensagens nós também somos um escritório de contabilidade e fazemos impressão de cartão de visitas, banner e faixa.

- …hmmm, legal…

- Será que dá pra incluir na assinatura do comercial de rádio uma chamadinha pros outros serviços?

- Mas é complicado, são 30 segundos e…

- …aqui nesse trecho ó “Telemensagens na voz de Cid Moreira, contabilidade e impressões corporativas de cartões, banners e faixas em vinil ou tecido.”

- Pára tudo e faz esse anúncio aqui, o cara precisa vender esse Vectra.

- Mas ele não é dono de uma loja de informática?

- É.

- Mas esse é um anúncio pessoal dele para os classificados?

- É.

Diário da caxumba

Dia 4 – Noite de Sexta

Jantar: após 14 minutos de microondas, estrogonofe de carne bovina de famosa marca de alimentos. Péssima escolha.

Lembrar de xingar um amigo que trabalha na agência que atende a famosa marca de alimentos e relatar o quanto a comida que ele ajuda a vender é ruim.

Rápido tour pelo circuito reader-twitter para captar e maldizer os últimos hypes da semana.

Breve praguejar contra os programas noturnos que não poderei esnobar dizendo que faria outra coisa caso o lado esquerdo do meu rosto não estivesse parecendo uma bola de boliche.

Sequência de Entourage (s05e05), Generation Kill (s01e06) e The Office (s05e02). Chupa, TV aberta.

Duas horas de God of War II no PS2. Estou prestes a atingir a metade do jogo, mas fica pra amanhã. Reempolgar-se com os clássicos da sua biblioteca – mais de um ano depois de comprados – é uma gostosa sensação.

Pensamento: a expressão “de saco cheio” teve origem na mesopotâmia, quando a princesa Parotidite não deixou seu enfermo marido em paz até que o volume de suas bochechas descesse para a sua bolsa escrotal.

Dia 5 – Manhã e tarde de Sábado

A longa exposição às musiquinhas de comerciais de operadoras de telefonia com certeza me causará um distúrbio psicológico.

Não aguento mais ver jornal. Preciso voltar a pagar o cabo.

Ressurge um misterioso Discovery Channel no 51. Valeu, Santa Clara.

Lanche: maxi-goiabinha, torradas com goiabada e suco de goiaba.

Fechando a tarde com relatório médico para a mãe via telefone. “Fique quietinho, meu filho”.

Eleição

- Já preencheu? Deixa eu ver aqui…

TRIMMMM TRIMMMM

- Tem que desligar o celular…

- Desculpe, esqueci…pronto, desligado.

A urna então resolve travar.

- Pessoal, por favor, desliguem seus celulares, a urna travou agora por causa de celular tocando…

Saí de fininho da seção e fui justificar minha ausência em outra sala.

- Porra, te liguei de tarde, mas não atendeste, precisava te contar…

- Tava justificando o meu…

- eu comi, comi!

E assim fudeu a urna.

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