Arquivo para Janeiro, 2009

Business card

É simples fazer troça com as pessoas que se identificam com a profissão no orkut, dizer que empanam de pavor estômagos alheios ou que tal expediente é um tipo de afirmação social tão útil quanto forminhas de gelo imitando objetos que não cubos.

Mas deixando a análise ingênua de lado, é claro que a identificação profissional no perfil internético ajuda sim quem dela se utiliza. Tudo é contexto.

Nós, que nos julgamos arautos do bom gosto, não estamos na pele de Cláudio Rubenaldo ADVOGADO para saber que a sua atual namorada teve orgulho de mostrar para as amigas o perfil engravatado do rapaz, ainda na época dos amassos pós-pagode onde se conheceram.

Nem de longe entendemos que Tailane Fotógrafa arranjou dois casamentos e uma formatura para cobrir esse mês graças aos retratos com fundo de cachoeira expostos no seu álbum PORTIFOLIO.

E o lado invejoso da família de Mari Gengibre FONO 2008 finalmente recebeu, devidamente esfregado na cara, o diploma recém-alcançado pela até então loser da família.

Funciona pra quase tudo

Se é ruim, dê de graça.

Se é bom, crie expectativa antes de dar.

Se é do caralho, crie expectiva, venda camisetas e dê.

gato_cabeca2

Dreno o nerd

Gilberto avista Josy no bar. Vai pra cima e lança o primeiro petardo.

- Sabia que é impossível formar um palíndromo aceitável com China?

- Sério? Deixa eu ver, “Ani, chato é o ovo na China?”. É, foda.

Deixaram acontecer naturalmente. O Escort de Gilberto os conduziu ao apartamento dele.

Na garagem, elevador, cara, caramba, caraô. Chegaram à cama, finalmente. Gilberto interrompe.

- Ah, desculpa, não apresentei…esse é o Luís Carlos, meu labrador. Ele vai cheirar sua bunda, mas tudo bem, ele não morde, viu?

Menos de 60 segundos se passam, nova intervenção.

- Ah, desculpa, não apresentei…esse é o Luís Carlos, meu amigo que divide o apartamento comigo. Ele vai cheirar sua bunda, pode ser?

Josy pareceu não ligar e arfava com desenvoltura.

- A cera causa a sua careca, a droga da gorda, saíram o tio e oito Marias!

Ali, ó, atrás de você

“Se você construir ele virá”, certo? Funciona assim na internet também.

Arrumando qualquer cantinho, gerindo uma comunidade, cadastrando um perfil, abrindo uma conta em um serviço.

Os idiotas, eles virão.

Em forma de comentário, scrap, reply deslocado, falta de noção. Eles virão, não tem jeito. Por melhor escondido que o seu buraco virtual seja, um imbecil chegará até ele.

Mas não é culpa sua e nem dele. Acontece porque os idiotas simplesmente são maioria, sempre foram e sempre serão, por isso é que temos poucos gênios e grandes talentos, já que a média é uma lástima eterna.

Sempre desconfio então dos que esbravejam sentenças manjadas como “o jeito que as coisas estão”, “antigamente não era assim” e escambais adjacentes, como se a amplitude da idiotice um dia tivesse sido menor.

Esses caras ou fazem parte da mesma massa de asnos que criticam ou, por qualquer motivo, se beneficiam da existência dela. Tipo político populista ou blogueiro que caça imbecil via google.

Em cima, embaixo, puxa e vai

Victor & Leo é o que acontece enquanto pagamos de antenados baixando o novo Franz Ferdinand.

As mulheres mais gatas do mundo são Sabrina Sato e Grazi Massafera, quem diabos é Megan Fox?

Certo, uma boa galera espera por Watchmen na telona, mas o que inunda a banquinha de DVDs bucaneiros do centro é o segundo Se Eu Fosse Você.

Não importa de qual popismo saiam as suas referências, o que enche o saco é o elitismo de araque de quem se acha superior por trocar “povão” por “mainstream”.

obama_blog

Não desce

Tenho desconfortos intestinais e delírios com os últimos dias de Pompéia a cada vez que leio no meio de um texto o termo “estadunidense”. É a picuinha ignorante travestida de arrogância disfarçada à procura de cúmplices. “Veja, eu os odeio tanto que não os chamo de americanos e ainda faço piada com o fato utilizando um termo que identifica claramente minhas posições políticas contrárias ao imperialismo”.

É tão mala quanto quem declara com aquela superioridade ingênua não consumir algum tipo de mídia. “Não sei quem é Flora, não vejo TV, muito menos Globo”.

Olhos abertos porque o sujeito acima também é o mesmo que destila líquidos venenosos pela boca e quase conquista um infarto ao declarar seu ódio pelo BBB, lembrando sempre como “esse é um país de idiotas sem educação” ou coisa do tipo.

Sempre que ouvir ou ler tais depoimentos exaltados, procure dar uma geral na estante de comunidades do indignaldo. Ah, ele tem orkut? Xiii, aí fura tudo.

Lá fora ela cai

Jamais esquecerei da pesada carga dramática empregada por Bruno Gouveia, vocalista do Biquini Cavadão, na versão ao vivo da banda para Chove Chuva.

“Hoje eu vou fazer uma prece pra Deus…Jorge Benjooor!!!” é sem dúvida o segundo momento mais afetado da história do pop-porcaria nacional em todos os tempos (o primeiro lugar ainda não foi definido, mas certamente será ocupado por Mallu Magalhães em algum momento entre 2009 e 2012).

Lembro então do carnaval de 1997 ou ano adjacente. Em cima do trio, na ilha do mosqueiro, uma banda dessas animadas genéricas guardava o hit exatamente para o momento em que a chuva caísse.

E caiu. A multidão movida a batida de maracujá e Cerpa quente então cantava ensandecida a versão do cover executada pela banda sem personalidade, “chove chuvaaaaa, chove sem paraaaarr.”

Alguns metros abaixo, no asfalto, à minha frente uma manauara entoava a letra de olhinhos fechados. Sabia que ela era de Manaus porque minutos antes estávamos nos conhecendo melhor e nos tornando bons amigos.

Houve o amasso.

Ela era feia, mas era carnaval.

Marcando posição

É simples, quem gostava de Mickey e/ou Super-Homem na infância se torna um adulto que compra lembrancinhas em quiosques de presentes personalizados no shopping.

Da próxima vez que você ganhar um bonequinho engraçadinho da sua profissão ou uma almofada de coração que dá abraço faça um teste.

- Ei, qual era mesmo o nome daquele cristal verde que enfraquec…

- Kriptonita!

Na mosca, nem precisa confirmar se o incauto sabe quem é Minnie.

É soda

A discussão do nosso tempo não é o inevitável choque de civilizações, as crises cíclicas do capitalismo ou a iminente fritura do planeta causada em boa parte pelo seu 1.0.

Não, nada disso.

O grande tema que panofundeia o cotidiano da média cidadã diz respeito às preferências pessoais por refrigerantes.

Pense agora em quantas vezes nos últimos sete dias você emitiu opinião sobre refrigerantes normais, zero, light, diet ou qualquer raio de invenção que a indústria de bebidas colocou nesse mercado.

“Ah, eu gosto muito mais da zero do que da light”

“Porra, o cara que pede um big mac com batata frita e o refrigerante é light! Kkkk!”

“Desses diet o guaraná é o melhor, o gosto é igualzinho”

“Nem vem com essa, nada é melhor que a coca normal!”

“A light eu tomo se for com muito gelo, quente não dá mesmo”

“Eu não gostava de pepsi, mas essa twist é boa”

“Nossa, mas e fanta uva? Ninguém gosta, né?”

“Se só tiver pepsi eu prefiro pedir um suco”

“Tem 2 anos que não tomo refrigerante, mesmo esses light fazem mal!”

“É sério, o guaraná jesus é rosa!”

Síntese & Eu

Não entendo e nem quero entender nada de medicina. Pago um plano de saúde para um cara que estudou o troço me dizer que aquela elevação na rabeira da minha mandíbula é o começo de uma caxumba.

Caso meu interesse no universo médico suba alguns pontos (mas não o suficiente para um novo vestibular), posso alugar temporadas inteiras de ER ou me entregar à moda House. Está tudo lá, romanceado e amassadinho com farinha láctea para a massa leiga.

Então realmente entendo quem aprende lições de vida com o universo da autoajuda (perdeu, hífen).

Se por qualquer raio de motivo – livre de julgamento por quem não está diretamente evolvido – o cara não se interessa naturalmente em analisar e entender coisas, pessoas e sentimentos que o rodeiam, ele tem o direito (desde que possua o caraminguá para tal) de adquirir um livro entregando mastigado, resumido e de bandeja que o segredo do sucesso é buscar a felicidade.

E como o filme do cachorro que morre no final bateu uma porrada de recordes de bilheteria e catatais afins nos EUA e no mundo, podemos esperar agora salvas de artilharia fortíssimas de histórias autoauxiliares filmadas para as telas.

Sucesso garantido, ninguém mais precisará concentrar esforços para quase terminar um livro em 8 meses. Duas horas de Jennifer Aniston bastarão para resolver anos de traumas existenciais.

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