Consegui provar para o meu próprio enérgumeno interior que sou capaz de almoçar em um restaurante vegetariano sem fazer cara feia. Já consigo encarar com relativa tranquilidade um prato desprovido de bichos macroscópicos deliciosamente mortos sobre a louça. Não que eles não façam falta, mas preciso aliviar o estropiamento a que submeto minhas artérias ou em pouco tempo escutarei Highway to Hell pelo lado de dentro da madeira.
No mundo sem gordura de tais estabelecimentos, fiquei caipiramente maravilhado descobrindo a polivalência da soja enquanto alimento. Certo, o leite e a carne disfarçada de boi todo mundo conhece (delícia de pai!), mas não sabia que esse grão espertinho também era capaz de se transformar em brigadeiro e em peixe (atualmente, trabalho na criação de coragem para encarar as duas opções).
E pelas mesas, se por um lado vemos trintonas peruas sacrificando-se em nome do padrão de beleza vigente, por outro temos um completo desfile de cabelos saídos diretamente de alguma edição do Fórum Social Mundial, geralmente acompanhados por batas de algodão cru adornadas com arabescos florais nas extremidades. É um uniforme.
Mas sem dúvida o mais torturante no universo dos restaurantes naturóides é a música. Deve haver algum tipo de manual secreto do vegetarianismo que determina os tipos de artista autorizados a ecoar pelas caixas de som. “Às segundas Enya, às terças são de Kitaro, para acompanhar a feijoada de soja na quarta, Manu Chao…”.
Assim não dá pra largar o boi.
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Não dá para encarar de forma alguma, a não ser MESMO sob ameaça de morte, uma refeição sem animalzinho morto. Ainda mais ao som de Enya… pior ainda. Indigestão certa.
Doda: hmmm, eu não encarava nada sem animal, agora já to aceitando…será que em alguns meses vou gostar de enya?
Enya dá um soooono…