O que determinou o fim da ditadura não foi qualquer contexto político local ou mundial, mas o alastramento da cultura voz & violão pelo Brasil.
Seria impossível um governo, autoritário ou não, manter-se no poder por mais tempo com um contigente tão grande de artistas reproduzindo em sua direção torturas em série como Roda Viva e Pra não Dizer que não Falei das Flores.
De país da América Central a Grêmio Recreativo Escola de Samba Unidos do Caralho a Quatro, o amigo aí que cultiva desejos presidenciais deve manter em mente que segurar o leme no rumo da democracia garante ao menos que Oswaldos e Montenegros lancem merda em outras direções.
- Criação de avestruzes (é, a história seria esperar o bicho crescer, descer a faca no pescoço e vender a carne);
- Criação de codornas (aqui venderíamos os ovos);
- Fabricação de bases com rodízio para camburões de lixo utilizados por condomínios (um camburão de aço sem esse tipo de suporte tem seu fundo desgastado com muita facilidade, sem falar no manuseio do mesmo por zeladores e agentes da limpeza pública, muito mais difícil de ser realizado sem a ajuda das rodinhas).
Mas nada aconteceu, mantive o Corsa 95 e saímos pela noite apontando a canetinha de laser no sensor dos postes de luz das avenidas mais movimentadas, tudo para confundir, apagar, aprontar uma danação desmedida capaz de não alterar absolutamente nenhum aspecto da vida econômica dos envolvidos.
E ninguém lembra de um comercial da Bosch com Evandro Mesquita cantando uma versão de Só Love de Claudinho e Buchecha.
É, no refrão, no lugar de “só love, só love” ele cantava isso mesmo que você talvez esteja imaginando, “só Bosch, só Bosch”.
Se quiser, tente achar. Já fui lá procurar, não veio nada.
Falando em Evandro, ele seria um ótimo Larry em uma versão nacionalizada do jogo.
Indo mais distante, é possível vislumbrar a modinha das festas temáticas em que todo mundo deve ir vestido como um Mesquita famoso.
Os disputados seriam os óbvios Evandro e Otávio, mas a coisa não fica por aí.
Temos, por exemplo, Suely Mesquita, autora de Microswing (é um disco) e Caio Mesquita, um gato de sax na mão que, em Júpiter ou Plutão, vendeu 400 mil discos.
Minha escolha recairá sobre Rogério Mesquita, profissional de desemprenho máximo e que, no último dia 8 de setembro (pois é, perdemos) gravou o DVD Como Apresentar Trabalhos e Monografias com Excelência.
Abaixo, a dinâmica do tapete.
Update 24/09 às 18:59: ah, rapaz, o sempre ligeiro Heliomarques descobriu tudo sobre Bosch e Evandro, confira nos comentários.
Update 24/09 às 19:32: agora foi demais, Heliomarques não só encontrou o vídeo como catapultou-o direto para o iutunber, confira abaixo e agora.
Comece aceitando apresentações no underground da cena rebolativa soteropolitana, adquira experiência e tente emplacar um primeiro hit.
Economize os primeiros cachês e feche com um dançarino criativo para integrar o seu cast. Uma coreografia bem sucedida criada por ele pode ser a chave para o estouro na esfera estadual, rendendo a primeira apresentação em cima do trio, ainda como atração coadjuvante.
Com o sucesso no carnaval, surgirão os primeiros convites para a TV. Não descuide dos salários da banda, uma briga de egos nesse momento pode comprometer os planos de conquista nacional.
O jogo termina quando você consegue gravar o primeiro disco que não venderá nada em espanhol ou quando é lançado o boneco do seu astro.
Macete: o golpe da gravidez rende excelente exposição e ótimos contratos quando é aplicado pela primeira vez, guarde como trunfo.
1996 “Deu 20 gifs, tem até de anal”
1997 “Tô indo lá, ela não mandou foto porque não tem scanner”
1998 “Ah, então você é um internauta também?”
1999 “Cara, saca esse site áye for iú”
2000 “Ah, tem que ter Flash pra ver”
2001 “É, se o cara desconectar lá a música não vem toda”
2002 “Ele tem até um blog”
2003 “Entra aí no fotolog dela que ela bota umas de biquini”
2004 “hahaha, tem até comunidade do bar do pitoco, o Tércio que fez!”
2005 “A minha Jeba 2.0 também”
2006 “É um viral!”
2007 “…da Blogosfera”
2008 “Rapaz, tem que ter redes sociais, o cliente pediu”
2009 “E ele tuítou isso?!”
Se um cartório eu possuíse, certamente investiria metade do meu dia no atualizar profundo de um sem número de blogs e endereços diversos. Enquanto isso, meus subalternos garantiriam o estufamento da minha conta bancária somente com o carimbar de papéis.
Com a acumulação progressiva de dinheiro, provavelmente eu fundaria empresas apenas para me divertir criando nomes e serviços mercadologicamente inviáveis, mas que renderiam ótimas fotos engraçadinhas das minhas fachadas.
Durante pelo menos um ano, todos os empreendimentos seriam batizados com o nome de Stênio Garcia.
Personalidade que de vez em quando alguém lembra na mesa para pagar de engraçado e exibir vasto conhecimento cultural geral no intuito de firmar-se como centro irradiador dos assuntos que movem o grupo naquela noite.
Um do fundo faz questão de frisar com suave ar de dúvida.
Se não há risco de morte, as pessoas só mexem o rabo se for para se divertir. Por isso não há tanto heroísmo assim no empreendedorismo envolvendo galhofa ou situações de guerra.
“Inventor do moderno carnaval carioca”; “líder da resistência francesa durante a ocupação alemã”? Pff.
Qualé, na primeira situação é só ter um pouco mais de paciência que os outros para fazer a conta no final da noitada. Já para protagonizar o segundo exemplo, bastaria ter colhões de ir até a padaria sob chumbo inimigo que o povo embaixo das mesas alçaria imediatamente o corajoso ao posto de líder.
Dignos das maiores estátuas, mesmo, são os caras que movimentam mundos e fundos construindo silenciosos sucessos em cima do que ninguém quer saber.
Em não tão remoto ponto do mundo, alguém já saiu do aluguel graças à idéia de fabricar aqueles cubos de microfone que ostentam o logotipo da emissora de TV.
A multidão passou por ali cagando e andando? Lá está a fortuna, rapaz.
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