Agueagá

Belém tenta ser uma metrópole, mas sua vocação para província é mais forte. A cidade precisa assumir isso honestamente, essa é a graça. Não temos jeito de São Paulo, nosso negócio está mais para Macapá mesmo e qual o problema?

Como acontece em cidades estilo novelas do Agnaldo Silva (praça-igreja-padre-prefeito-delegado-puteiro), frequentemente Belém flagra-se envolvida em inúteis polêmicas e discussões que não levam ninguém a lugar nenhum, mas que são divertidíssimas.

A madrugada entre os dias 23 e 24 de dezembro de 2005 ficará marcada para sempre na memória do provincianismo da cidade. Desde que o shopping Iguatemi anunciou que ficaria aberto das 10h do dia 23 até às 18h do dia 24 para compras de Natal, a cidade não parava de comentar: vai dar certo? Como assim? O shopping vai ficar aberto toda a madrugada? Quem vai estar por lá às 4 da manhã? Isso vai ser um fracasso!

Pois bem, durante o dia, fazendo o roteiro mental para a farra noturna, meu plano era claro: vamos encher a cara em qualquer lugar antes e chegar pelo shopping umas 4 da manhã para continuar a bebedeira, testemunhar a abertura do estabelecimento na madrugada e claro, fazer merda. Graças à Santa Claus, Randy Rodrigues estava com o mesmo pensamento e convenceu Marcelo Damaso de que este era uma idéia. Artur Bestene foi contratado de última hora, mas vestiu a camisa da missão como se fosse sua última bebedeira.

E com esta configuração de equipe, desfalcados de alguns nomes que começaram a noite conosco, chegamos ao Iguatemi por volta das 3:30 da manhã. Estacionamento lotado. Corredores idem. Famílias, crianças, senhoras com mais de 50 anos. Todos fazendo compras de madrugada, encarnando uma vazia transgressão consumista de classe média. Definitivamente alguém precisava de uma bebida.

Com alguma dificuldade conseguimos uma mesa na praça de alimentação. Em alguns minutos, copos de plástico de 500ml recheados de chope já estavam em nosso poder. Como moleques adolescentes, o desafio agora era fumar sem que os seguranças percebessem. Homens bêbados reunidos sempre tendem a regredir alguns anos em sua idade real.

Conseguimos fumar à prestação: cigarros pra baixo da mesa, um passando pro outro. Maravilha. No palco central, o repertório de praxe em shoppings e afins: MPB e, em nosso caso regional, MPP (sim, a música popular paraense, que nesses locais costuma ser reduzida à “uma leira, uma esteira, uma beira de rio / um cavalo no pasto, uma égua no cio”). O ambiente precisava urgentemente ser cagalizado. Foi quando Artur, ajudado por mim, iniciou seus conhecidos berros pedindo “toca Motorhead porra!”. As coisas começavam a sair de acordo com o planejado.

A impressão era de que a cidade toda estava no shopping. Amigos e conhecidos fluíam pelas mesas como se fossem beatas passeando pela feirinha da praça em frente à igreja. A festa ficou completa quando uma bandinha marcial, contratada do shopping, entrou no ambiente tocando músicas natalinas em ritmo de marchinha. Randy, este iluminado, então sumiu. De repente ouvimos uma voz conhecida saindo das caixas de som. “Aguê, aguêagá, eu danço um afoxé, você toca um maracá”; hit do paraense Marco “quero ser a Maria Betânia” Monteiro. Vitória, aplausos, agradecimento. Randy havia tomado o microfone e coroou com sua performance nosso plano de desestabilização da classe média. Consegui inclusive subir nas cadeiras para aplaudir.

Os reforços não paravam de chegar: amigos vindos dos mais diversos botecos, shows e sacanagens foram conferir pessoalmente a noite em que a cidade preferiu não dormir para comprar camisas de gola pólo e comer Cheddar McMelt na promoção com refrigerante e batata frita.

Qualquer dia as fotos entram no ar aqui.

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5 Responses to “Agueagá”


  1. 1 dezembro 26, 2005 às 1:30 am

    Porra, perdi essa cena.
    Também, podiam ter ligado mais cedo, né?

    hahahahaha…PQP.

  2. 2 natalia brabohttp://outrasmofas.blogspot.com dezembro 26, 2005 às 3:36 pm

    Teve fotos? vcs são muito cabocos mesmo! :)

  3. 3 Emanuel dezembro 27, 2005 às 12:52 pm

    Me disseram que 5h da manhã havia fila pra entrar no shopping, pqp! Preferi minha cama.

  4. 4 Ana Paula Freitas dezembro 31, 2005 às 2:12 am

    como eu perdi o randy no palco? meu deus…!

  5. 5 Davi Lima março 26, 2007 às 12:28 pm

    Foi o besta do Artur Bestene que tocou fogo no buzão do Ganesha né?
    Incrível como essas energias se atraem..
    E como o Google localiza!

    Abraços!


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