Gosto de calçada

Doda, seu nome está sim na lista (SHHH), peça pra ver de novo, mas estamos em uma pizzaria aqui próximo (SHHH), qualquer coisa passa aqui. Onde é mesmo? (SHHH) Rua Purpurina, bem em frente a um posto BR (SHHH). Ah, certo, vou aí então. (SHHH) Doda…(SHHH) Doda?

Rua Purpurina? Será que eles são uma banda gay e eu ainda não tinha notado? Deixa pra lá, coisas de São Paulo e seus nomes de rua esquisitões, esse mais esquisitão ainda, eu é que não moraria nessa rua, já pensou? Doda, onde você mora? Ah, na rua Purpurina, é facinho de achar. Sai pra lá é que é!

Boa noite, a Rua Purpurina fica pra qual lado? Descendo mais seis ou cinco quadras por essa mesma rua o senhor ta lá. Obrigado.

E fui atrás da rua Purpurina encontrar o Los Pirata, afinal, meu nome não estava na droga da lista e não vou pagar dez reais pra entrar lá no tal do Studio SP. Os dez reais já são duas cervejas lá dentro e os tempos não são dos mais fáceis para um desempregado na cidade mais rica do país.

Amigo, essa é a Rua Purpurina? É sim, senhor. Você sabe de alguma pizzaria por aqui? Logo ali, senhor. Ah, encontrei e enfrentando apenas uma leve ladeira, estou no lucro, aqui está o posto…Esso? Olhei o restaurante todo, nada dos caras. Maldita rua Purpurina, mais cinco ou seis quadras a pé até a merda do Studio SP de novo.

De volta ao local, descobri que a tal pizzaria ficava apenas a uma quadra e meia da porta da boate e o nobre senhor Sérgio, guitarrista da bandinha de coreto de praça, havia confundido as pizarias. Calma, calma, devo pensar que foi para o meu bem, estou algumas dezenas de quilos acima do meu peso ideal, era uma ingestão de ânimo para que eu continue a comer frango grelhado com salada no almoço e prossiga andando quilômetros diários entre pontos de ônibus e estações de metrô.

Mal entendido resolvido, meu nome estava sim na lista, vamos ao bar. Cerveja a quatro reais, long neck Brahma, razoável, não é das mais caras. Pouca gente no ambiente ainda. O show vai começar e o estranho público que não vibra começa a apreciar a performance da banda. Como frisou o amigo Guilhermoso Wild Chicken (ou simplesmente Frango), parece uma apresentação de quarteto de cordas: todos ficam parados em silêncio e nos intervalos de músicas aplaudem efusivamente a banda.

O único animado a fazer um air guitar e bater cabeça parecia ser eu mesmo. Sinto-me um tanto quanto ridículo, confesso. Frango não faz air guitar e tampouco bate cabeça, mas pula como uma criança oitentista, feliz com seu novo pogobol. Mais uma música chega ao fim, aplausos extasiados. Outra música começa, todos se calam. Já devo estar pela quarta cerveja. Show termina e quem diria, o público pede bis, sendo prontamente atendido pela banda. Frango revolta-se com a atitude da trupe e retira-se do ambiente, pois segundo a cartilha xiita de atitude rock and roll, dar bis para público xôxo é ferir mortalmente os princípios do ritmo de Chuck Berry. Quinta cerveja, acho.

Fim de show, hora de bater papo e interagir com as pessoas. Mas que pessoas? Eu só conheço quatro, sendo que destes, três acabaram de fazer um show e cuidam de instrumentos e demais atividades de backstage (isto não foi um trocadilho), e o outro encontra-se sabe lá onde, talvez tentando ensinar as pessoas como agir em um show de rock: vamos lá, agora todos juntos, balancem a cabeça rapidamente para cima e para baixo; empurrem com força média o colega da esquerda, muito bem! Agora o da direita, isso mesmo! Outra cerveja, acho que é a sétima ou oitava, merda, como era mesmo o nome daquele atacante do Remo que sempre fazia gol no Paysandu na campanha do tricampeonato invicto 89-91? Rildon, porra! Rildon!

Algumas circuladas pelo ambiente depois, entro em uma animada roda de papo formada por alguns dos quatro caras que conheço na festa. As mulheres são todas mais altas, mas até consigo arrancar umas risadas de algumas, não sei se pela minha altura ou cara de zé. A banda que ocupa o palco agora vem de Portugal, o nome é de The Gift. O vocalista canta parecido com o rapaz do Radiohead, as músicas são bem parecidas também…ah, o vocalista é uma mulher, claro, eu tinha percebido, não, essa ainda não é a décima cerveja, é? Não, acho que tenho quase que certeza que não sei se é a décima…porra, o Rildon era foda. Não, Sérgio, vou ficar por aqui mesmo, obrigado pela carona, mas ainda preciso me dar bem com a…qual o nome dela mesmo? Glória! Oi, Glória…ah, não é Glória, eu sabia, espera um pouco que vou só pegar uma cerveja.

Calma, vou lembrar o nome dela, eu sei que vou, sei que vou, Rildon, seu filha da puta, sai da minha cabeça! Já sei, ela também não sabe o meu nome, claro que não sabe, vou utilizar isso como arma…oi, voltei, ei, você também não sabe o meu nome!

Não sei mesmo, desculpa, qual é? Edoardo, mas pode zamar, digo, chamar de Ril…digo, Doda! Prazer, o meu é (era a décima e alguma coisa cerveja, caro leitor, obviamente não lembro o nome da referida garota), você espera aqui enquanto vou ao banheiro? A clássica fuga para o banheiro, acho que me dei mal…vou esperar zó cinco minutoshh, se ela não voltar pago a conta e zamo um Rildon, digo, um Táxi.

Cinco ou quinze minutos depois (vai saber)…

Azeita é…o que mesmo…ah, cartão de zébito? Zerto, então pode passar a conta nele…obrigado, onde assino? Claro, zébito não assina, só o créditosh, Eu zabia, tava só tirando uma com a zua cara, ehehehe…uouououou…(blaft!). Puta que pariu, a calçada tá na minha cara, acho que caí ou então ela mudou de lugar…

O senhor não está bem, quer um táxi?

Opa, esses dois caras de terno tiraram a calçada da minha cara, zerá que são meus zeguranças? Mas eu cheguei em São Paulo tem unsh 20 diass, ainda não tenho emprego, como posso pagar zeguranças? Mas que metido a besta eu sou…

O senhor mora onde?

Morumbi, digo, Vila Mariana! Quase do lado…é, não são meus zeguranças, mas este aqui é o meu táxi pelo jeito, ainda bem que não estou dirigindo. Boa noite, o senhor fica por onde na Vila Mariana? Er…eu não sei…não sei…talvez, quem sabe? Pô, zei lá, pega a Paulista e de lá vou lembrando. Calma, lembrei! O zenhor pega a Domingosh de Moraiss, dobra na Linsh de Vasconcelosh e depois na Neto de Araújo, vou dormir, se der maish de 25 reaish já sei que o senhor me enrolou, portanto, nada de gracinhash!

Quanto deu? Vinte e sete senhor. Tá, dessa vezsh passa, toma aí.

Entro no apartamento tentando fazer o mínimo de barulho, preciso apenas entrar no quarto, estender o colchão e dormir. Porra, Doda! Dá pra fazer menos barulho, são cinco e meia da manhã! Ih, foi mal…putz, que diabo é isso aqui…(Blaft! Spunc! Cataploft!)…ah, era o monitor…boa noite, cara.

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8 Responses to “Gosto de calçada”


  1. 1 Marcelo Damaso fevereiro 14, 2006 às 1:57 am

    Uh, Deus… que tragédia. Essa cidade é cruel. Pior ainda quando se acha que pode-se pegar alguém em uma night.

    Boa sorte, meu bom homem.

  2. 2 Jesus Sanchezhttp://www.lospirata.com fevereiro 14, 2006 às 3:09 pm

    hahahahahaah mais uma história incrivel!
    Fora a mensagem recebida por celular no domingo… que repassei para o cel do Loco que respondeu: Adorei a letra da musica! Que letra? Foi a mensagem do Doda!!!! Real e tragicômica!!!

  3. 3 Tylonhttp://www.ressacamoral.com fevereiro 14, 2006 às 7:20 pm

    Oh Glória!

  4. 4 karla nazarethhttp://geocities.yahoo.com.br/karlanazareth/ fevereiro 15, 2006 às 12:39 am

    :S doda? doda? oi? tá ai?

  5. 5 Bean fevereiro 16, 2006 às 1:30 pm

    adorei a linguagem bêbada inconformada.
    ainda achando que tem razão.
    ;-) muito bom.

    em relação ao show, não sei te dizer ao certo, mas: público da Vila Madalena é estranho por natureza. Isso não é preconceito, é estatística. Mesmo. Numa das festas ‘rock’ de lá, fiquei um bom tempo na bilheteria. As pessoas desciam a rua, ouviam um som e perguntavam: “que que rola aí hoje?”

    os seguranças sempre respondiam: “duas bandas e DJ”.

    e a galera entrava!!!!!!!!!!! Sem perguntar se era banda de pagode, de axé ou de calypso!

    dá pra saber que eles estavam gostando pelas palmas pelo menos! Porque às vezes, nem isso rola, já que todo mundo se aglomera lá em cima quando não curte a banda. Acho bom o povo que não sabe o que está acontecendo mas fica lá pra prestigiar. E acaba conhecendo, procurando, comprando….

    outro detalhe: os fãs de verdade, chegaram depois do show. Beeeem depois. E perderam a festa. ;-(

  6. 6 Nana - Vizinha fevereiro 16, 2006 às 4:44 pm

    atualiza aí, vizinho!!!

  7. 7 Marcelo Damasohttp://www.serasgum.com fevereiro 20, 2006 às 2:57 pm

    Desculpe Bean, mas fãs de verdade não se atrasam. Hehehe.

  8. 8 Bean março 1, 2006 às 6:09 am

    hehe
    mas Marcelo, os fãs de verdade achavam que o show era depois da banda Portuguesa-com-certeza. Como havia sido divulgado.
    ;-)


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