Os seis passos para a perfeita degustação da pinga

Texto originalmente publicdo dois mil anos atrás no disforme www.ressacamoral.com

1 – A escolha do boteco – As melhores marvadas estão nos piores botecos. Algumas padarias chulé também oferecem boas pingas, mas na dúvida fique com o bom e velho bar e restaurante de um Zé qualquer. Beber cachaça em mesa é uma heresia, portanto confira o balcão do estabelecimento, se ele estiver em bom estado dê o fora, balcão bonito é coisa de lounge bar onde todo mundo senta em sofá e não encosta a barriga em nada.

2 – Horário. O horário de raiz para se tomar um goró de responsa é o intervalo comercial no meio da manhã ou da tarde. Além do efeito anti-stress, o horário tem o charme malandro de se estar fugindo do serviço e enganando a mula do patrão. Uma saída mais completa pode incluir também uma partida de bilhar, mas depois ninguém garante que sua mesa ainda estará no escritório.

3 – Posicionamento. A pose do cachaceiro no balcão, bem como o modo de pedir a mardita é tão importante quanto a própria degustação do líquido. Ao chegar, de preferência usando óculos escuros, não fale com ninguém, mantenha seu olhar fixo em um ponto no horizonte e encoste no balcão jogando a lateral de seu corpo sobre o mesmo e apoiando-se com o cotovelo esquerdo (se você for canhoto pode utilizar o cotovelo direito). O palito no canto da boca é um clássico, mas opcional nos dias de hoje.

4 – Pedido. Levante o braço direito e o indicador (se você for canhoto pode utilizar o braço esquerdo), peça a pinga em voz relativamente alta e logo depois aponte o dedo para o balcão e encoste a ponta na superfície do mesmo. O modo de pedir varia de acordo com a localização do boteco, mas a frase “ô Zé, desce uma!” pode ser utilizada em praticamente qualquer região brasileira sem maiores problemas. Crie seu próprio estilo fazendo amizade com o garçom, chamando-o pelo seu nome correto e pedindo a branca por um apelido criado por você mesmo, tipo “Silvester, vê a baticum aqui”. Quando for novo no balcão, jamais pergunte o preço, isso demonstra falta de intimidade com a birita e principalmente, falta de dinheiro na carteira, pois uma dose da vagabunda dificilmente passa de dois reais.

5 – Degustação. A pinga deve ser servida em mini copo americano de 45ml ou em copo americano normal de 190ml (neste caso, a cachaça ocupa pouco menos da metade do copo), mas é claro que você não vai ficar discutindo estas minúcias no balcão. Boteco pé-rapado de primeira linha conhece todos estes detalhes e, mesmo que não conheça, não discuta com o cara do bar que isso é coisa de maricas. Beba em qualquer copo e na quantidade servida, só reclame caso a mardita não desça queimando. Ah, sim, o líquido deve ser bebido em uma só talagada, nada de dois goles. Um leve cheirinho para sentir o aroma do álcool é permitido, mas pode ser mal visto em estabelecimentos com maior índice de machismo.

6 – Pós-pinga. Após virar o copo, não faça cara feia e evite sons ou expressões demonstrando alívio, sinais típicos de quem não possui talento para o ofício. Mantenha a posição de macho inabalável e se for o caso, diga apenas “aahh”. Atenção, no máximo dois “a” e dois “h”, sem exclamação.

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2 Responses to “Os seis passos para a perfeita degustação da pinga”


  1. 1 karla nazarethhttp://www.plasticsurprise.blogspot.com julho 26, 2006 às 3:05 am

    o “do santo” foi eliminado do processo. é o fim dos tempos.

  2. 2 Dodahttp://www.ressacamoral.com julho 26, 2006 às 3:06 am

    É porque eu sou ateu.

    :-)


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