Grand Prix Zé

A atividade publicitária, talvez um pouco mais que a vida de um modo geral, é feita de pequenas espertezas e insinceridades necessárias à sobrevivência de uma agência ou carreira profissional.

Algo que sempre me chama atenção é a divulgação das conquistas de agências. Uma coisa é a DM9 ostentar na sua fachada de vidro, em letras garrafais, os títulos de agência do ano em Cannes e primeiro Grand Prix brasileiro no mesmo festival. São feitos realmente notáveis e que merecem todo destaque, mesmo que, particularmente, eu ache brega os adesivos na fachada da empresa.

Mas nada pior que orgulho pé-rapado ou tentativas espertinhas de transformar banalidades em fatos relevantes. Ouro no Prêmio Piraporinha de Propaganda só vale ouro pra organização do festival, que tirou uma boa grana dos trouxas que inscreveram alguma coisa na premiação. Mesmo assim, a agência premiada cacareja para meio mundo que botou um ovo. Ok, o processo todo transcorreu legalmente (estamos partindo do princípio que o festival é um negócio privado e que julga como bem entender as peças inscritas em seu certame), então é direito da agência divulgar da maneira que achar mais adequada o resultado de seu desempenho.

O que acho sacanagem é o cara ter consciência de que aquele trofeuzinho vale menos que um pastel de palmito e, mesmo assim, ele plantar notinhas na imprensa, publicar anúncio e divulgar para os clientes a vitória. Os clientes, em sua maioria, não sabem diferir Cannes de Colunistas, e aí temos a esperteza. Dizer pro cara “ei, emplacamos três anúncios no Gabirú Awards e estamos com duas peças na seção Showcase da Ad Anal, me dê sua conta porque somos criativos e engraçadinhos” é de uma mesquinhez que enoja.

Lado a lado com a indústria fantasiosa dos prêmios tipo pagou-entrou, temos a síndrome de vira-lata que acomete o brasileiro desde 1500, reproduzida regionalmente em cada mercado, de acordo com seu tamanho. A agência é do norte? Então qualquer citação em blog ou referência no Blue Bus é comemorada como se fosse a conquista da conta da Nike. O cara é do nordeste, inscreveu trinta peças no CCSP e não emplacou nem anuário? Ora, “a culpa é desse monte de paulistas preconceituosos filhos da puta, porque ano passado fomos os mais premiados no Senegal World Creativity!”. A agência está na capital paulista e não consegue nada além da conta das Faculdades José Mané? Claro que “é por causa da panelinha das grandes agências que não nos deixa entrar no jogo!”. Trabalhar que é chato, mas dá dinheiro, a turma não quer.

Quando os escândalos governamentais publicitários estouraram em 2005, grupos de dirigentes da área apressaram-se em fazer reuniões para discutir como reverter a imagem da classe perante a sociedade (como se a sociedade ligasse pra isso), mas esqueceram que antes dos trambiques do careca e das contas no exterior do Duda, a picaretagem rolava solta, não apenas no departamento financeiro, mas também nas salas de criação falsamente criativas.

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2 Responses to “Grand Prix Zé”


  1. 1 Fhoutzhttp://www.oficinairritada.zip.net dezembro 12, 2006 às 3:47 pm

    Não sei se é ignorânciaminha, mas acho que esse é o tipo de coisa que só interessa à agências e aos donos de agências e a quem trabalha nas agências. Sendo uma coisa picareta, quem é do ramo logo reconhece a picaretagem. Quem não é, não se importa.

  2. 2 karla nazarethhttp://www.plasticsurprise.blogspot.com dezembro 13, 2006 às 9:54 pm

    na época de conseguir estágio, desisti de comentar sobre prêmios adquiridos na unama quando eles não me auxiliavam no meu desempenho para servir cafezinho. sou uma exímia servidora de cafezinho. e água.


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