Zapping

James Bond é um saco. Mas ainda mais sacal é a avalanche de resenhas, entrevistas, programas e matérias sobre o novo filme que invadiram revistas, jornais, canais por assinatura e internet.

Tive certeza da invasão na minha zapeada noturna no último sábado. Impressionante a capacidade humana de tornar “sério” um assunto tão irrelevante. Haja crítico analisando subliminarmente a personalidade de Bond e como o ator novo captou ou não as nuances do agente secreto em sua interpretação. Espero que, em breve, a indústria de cinema caia de joelhos como a do disco caiu, assim não seremos mais obrigados a engolir essas forçadas de barra de maneira tão generalizada.

Tentando fugir do tal novo filme que não vi e não gostei, caí em um reality show que desconhecia: American Inventor. Uma competição iniciada por 42 inventores, cada um apresentando seu invento para que um júri eliminasse metade deles. Restaram 24, que na segunda etapa falaram um pouco de sua história pessoal e porque acreditavam que seu produto merecia estar entre os 12 finalistas. Os escolhidos para a final ganharam 50 mil dólares, cada um, para aperfeiçoar seus inventos.

Resumidos em um programa de cerca de uma hora estavam alguns dos valores que tornam os EUA donos do mundo: a competição acirrada que prega a vitória a qualquer preço, o incentivo na busca pelo novo e a exaltação do esforço individual.

Várias das invenções eram ridículas. Uma jovem mãe de família aparentando poucas dificuldades financeiras na vida levou até o júri um “ursinho do caráter” (acho que era esse o nome), um urso de pelúcia sem enchimento e com uma abertura traseira onde deveriam ser colocados outros itens de pelúcia de diversos formatos (eu juro que não estou sendo irônico), como corações, estrelinhas e luas. Cada item estampava palavras e valores positivos, como sinceridade, afeto e honestidade. O objetivo do brinquedo era ensinar às crianças como preencher um bom caráter. Divertido? Meu sobrinho destruiria o brinquedo em dois ou três minutos, ajudado por mim, diga-se.

Se por um lado a produção escolhe alguns produtos para fazer o papel de palhaço, por outro são selecionados inventos realmente interessantes, criados por losers do sistema – justamente outra intenção do programa: exaltar o empreendedorismo pessoal como meio de alcançar o sucesso, um dos pilares da nação.

A carga emocional das histórias de cada um dos 12 finalistas e o modo como o programa conseguiu arrancar isso deles é sensacional. Americanos parece que nascem sabendo fazer TV ou aprendem na escola como discursar de maneira apelativa em frente às câmeras.

Ed Hall, professor de escola primária em Chicago, tinha um promissor futuro como jogador de basquete profissional. Mas cortado do time da universidade, dedicou-se aos seus alunos e ao Word Ace, um jogo eletrônico – parecido com o antigo Genius, que ensina crianças a soletrarem palavras de maneira divertida.

Erik Thompson é dono de uma academia e ensina futebol americano para jovens carentes. Dedicou sua vida a um colete esquisito que ajuda o atleta a melhorar suas habilidades de recepção da ball no football deles.

Mas o invento que me pareceu mais útil e, sem dúvida, a história mais emocionante de todas, é a do imigrante polonês Janusz Liberkowski. Ele perdeu a filha de um ano e meio em um acidente de carro. A menina estava em uma daquelas cadeiras de bebê, mas o impacto foi tão forte que ela não resistiu à pressão do cinto de segurança da cadeira. Janusz projetou então um assento para bebês em formato de meio círculo que absorve o impacto e, ao invés da criança ser presa pelo cinto, ela gira em torno da própria esfera da engenhoca. Eu chorei no depoimento do cara e fui atrás da página do programa na internet. Sem surpresas, descobri que ele foi o vencedor desta primeira edição do programa (que já acabou nos EUA, mas que o Sony ainda exibe por aqui).

O mais legal de zapear a TV são os acompanhamentos. Eu gosto de cerveja com amendoim, mas como estou de dieta, nessa noite do American Inventor eu comia palmito em rodelas.

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1 Response to “Zapping”


  1. 1 Aloizio dezembro 20, 2006 às 1:34 pm

    Eu já assisti uns 2 episódios do american inventor, esse invento do polonês realmente é o melhor, o iscurso dele foi bastante comovente mesmo…

    Agora, essa sony é só reality show: american inventor, america’s next top model, american idol, top chef, daqui a pouco teremos programas como: america’s next cabelereiro, america’s next cab driver, america’s next mcdonalds employee, etc.

    um abraço!


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