Comecemos

Começar é uma arte. No primeiro dia você chega cedo, muito cedo, é recebido pela tia do café ou pelo boy, geralmente os encarregados de chegar antes de todos. O primeiro constrangimento: explicar que é seu primeiro dia. “O fulano já chegou? Ainda não? É que eu vou trabalhar com ele, to começando hoje”. E você recebe o primeiro olhar superior e aquele pensamento íntimo de “hummm, coitado, mal sabe o que te aguarda”.

Não importa o lugar, as revistas da recepção são velhas e/ou chatas. É difícil segurar o sono. Seus colegas de empresa chegam aos poucos. Dão um acanhado bom dia, meio desconfiado. Você fica ali tentando imaginar quem são aquelas pessoas. A loira gostosa de nariz empinado é o principal assunto no cafezinho, mas é casada e não dá papo pra ninguém. O gordinho mal vestido que recolheu os jornais da recepção deve ser do administrativo e odeia você antecipadamente. Esse aí com camisa de futebol é estagiário. A bonitinha simpática sorridente é a fofinha da empresa, amiga de todos, namora um babaca com o qual briga toda semana, vive chorando. Ah, chegou o piadista, “porra, Pereira, mas esse teu time, heim?”, sempre falando alto.

15 minutos atrasado, finalmente chega seu novo chefe. Bom dia, aperto de mão, seja bem-vindo e vamos até sua mesa. Pelas regras universais, o pior computador é o de quem chega. Obviamente, nada está funcionando direito. O mouse é uma droga, vários programas não estão instalados e o teclado veio na exclusiva cor amarelo-sebo. O telefone, cadê? Qual é, você é novato, agradeça ter pelo menos a cadeira.

Vamos ao tradicional giro de apresentação pela firma. Agora sim estamos falando de constrangimento. Não tente decorar nomes nesse momento, além de ser humanamente impossível você ainda corre o risco de confundir alguém e chamar a Márcia de Eliana sem saber que as duas são inimigas mortais na empresa. Certas pessoas tentarão fazer gracinhas na hora da apresentação, quase com certeza a gracinha não terá graça, mas entre no clima e dê um sorriso amarelinho.

De volta ao seu bunker, provavelmente você receberá tarefas que ainda não conseguirá cumprir, ou porque seu computador não está apto ou porque precisa de informações que ainda não tem como obter. Mantenha a calma porque o meio-dia está chegando e com ele um novo constrangimento: com quem almoçar?

Se o novo chefe lembrar desse detalhe, provavelmente convidará você para almoçar e seu primeiro dia estará salvo. Mas caso ele esqueça, apele para a velha tática de perguntar para o colega mais próximo “qual a boa do almoço por aqui?”. Nesse primeiro dia, nada de frescuras com preço do restaurante ou qualidade da comida, encare qualquer coisa (menos comida japonesa, pois como sabemos, aquilo é qualquer coisa, menos comida).

Lá pelo terceiro ou quarto dia já lhe perguntarão o que você está achando da empresa, prepare uma resposta simpática, mas para não parecer puxa-saco demais, acrescente um “apesar do horário um pouco menos flexível” ou “mesmo com a grande quantidade de trabalho”.

Fique atento às regras não verbais da casa. A bela xícara de café na copa é de uso exclusivo daquele Zé Mané do marketing que passa base nas unhas. Quando convidado para um Happy Hour, não chame por conta própria outras pessoas, evitando elementos indesejados pelo grupo que marcou o chope e também mágoas do tipo “poxa, nem me chamaram”. E por favor, não obrigue ninguém a aturar seu gosto musical até que você perceba qual o gosto dos outros, sem essa de achar que todo mundo gosta de Chico Buarque (não, nem todo mundo gosta, aceite isso) ou Bruno & Marrone (não, nem todo mundo odeia, aceite também).

Nota: em 2006 poucos começaram tanto quanto eu. Trabalhei em 4 lugares diferentes e, segundo minha última conta, compareci a 17 entrevistas, ou seja, média de 4 meses por emprego e 1,4 entrevistas por mês. Se você tiver um pouco de estabilidade sobrando em casa pode e quiser doar, aceito de bom grado.

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1 Response to “Comecemos”


  1. 1 Diegohttp://www.casadogalo.com janeiro 24, 2007 às 3:31 pm

    Há! Faz tempo que leio seu blog! Outro dia até te vi na rua aqui em São Paulo. Sou namorado da Laís, amiga do Eder…

    Continue escrevendo, me divirto muito! :)

    abraço,

    Diego


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