Peito

Mário acordou na cama de uma amiga. Não no mais careta significado do termo, era amiga que quando sente falta de um namorado liga pro amigo, não exatamente para se lamentar. A noite foi boa, de inspirar composições machistas, ótima para alimentar conversas vantajosas na mesa do Pé Sujo. O jogo era entre amigos de longa data, ela então não via problema em deixar os pudores na gaveta e consentia que ele, por sua vez, espalhasse onomatopéias pelo quarto e por onde mais pudesse imaginar.

– Ainda não foi trabalhar? – Daniela perguntou, abrindo os olhos castanhos que, apesar de belos, guardavam certo inchaço e vestígios remelentamente amarelados em cada canto.

– Hoje posso chegar um pouco mais tarde, é dia do meu rodízio…acredita que ainda não comi? – Respondeu Mário, um pouco distante, enquanto procurava sua cueca.

– Bobo, a geladeira ta cheia, só de queijo tenho 5 tipos.

– Eu sei, já provei todos, o provolone estava ótimo, só não achei a mortadela.

– Mas que droga, você sabe que eu odeio mortadela.

– E eu sempre faço questão de esquecer esse detalhe porque não entendo como alguém pode não gostar de mortadela.

– Ai, que saco! Mas então, você já comeu…ta reclamando do que?

– Não era disso que eu tava falando, falei que ainda não comi a outra lá, a Lú.

– Ah, como eu ia adivinhar que era isso? Mas fala, ela ainda ta regulando? Sai dessa então, ora.

– Não dá, acho que to ficando a fim dela.

– Hummm…aí complica. Mas o que falta pra ela dar? Uma aliança?

– Não sei, já disse que eu topava algo sério, ela não diz sim e nem não, vai me enrolando e no final da noite sempre arruma uma desculpa pra evitar dormir junto.

– Já tentou embebedar a moça?

– Já, várias vezes, lembra que te contei que ela vomitou no meu carro semana passada?

– Verdade, lembrei…olha, ou ela não quer nada com você ou é lésbica ou as duas coisas.

– Não, lésbica ela não é, o dedo indicador dela é menor que o médio, como o das heteros. Um amigo me disse que lésbicas tem o dedo indicador maior ou do mesmo tamanho que o médio. A Ângela, aquela minha ex, tinha o indicador maior que o médio e depois eu soube que ela pegava uma prima minha.

– Mas que bobagem essa dos dedos, eu mesma passei uma noite com a Ângela e não tenho o médio maior que o indicador.

– Pera lá, você e a Ângela?! Eu ainda namorava com ela? Como você nunca me contou isso? E desde quando você gosta de mulher também?!

– Shhh, calma, passou, vocês estavam brigados nessa época, e quem disse que eu gosto de mulher? É diferente, com mulher eu apenas me divirto, quer dizer, me divertia, nunca mais peguei uma chica…ai, ai.

– Eu…eu…não sei se estou puto por você ter me corneado com a Ângela ou por não ter sido chamado pra brincadeira…

– Rááá! Pegadinha do Malandro!

– Porra, como assim? Você tava me sacaneando?!

– Claro que eu tava, bundão! Você acha mesmo que eu ia pegar aquela chata da Ângela, eu heim, se ainda fosse a Lú…

– Ah, droga, você não está ajudando, tchau.

– Não ganho beijo?

– Não, amanhã – Mário saiu em direção à porta.

– Olha, tenta pelos seios… – Dani deu uma última palavra para o amigo que deixava sua casa.

Ao deixar o prédio, direto para o escritório, objetivou que hoje ele iria, finalmente e de qualquer maneira, comer Lú.

– Peito…até que é uma boa idéia, taí: se não der pra comer ao menos vou pegar no peito, quem sabe até beijo um deles. – Conjeturava enquanto os pedestres na calçada ultrapassavam seu carro congestionado.

Refletiu mais e mais sobre eles, os peitos, não os pedestres. Se tocou que além de não ter traçado a moça em todos os sentidos, também não havia sequer tocado um seio. E que seios os de Lú. Tamanho médio, sempre bem colocados em decotes castamente ousados. Ela não gostava de sutiã. Criava os meninos soltos no quintal, comprovando que, a aparente rigidez, não era apenas aparente. Seios orgulhosos, bicos empinados, arrogantes.
Mário passou o resto da manhã e boa parte da tarde pensando naqueles peitos. Imaginava sua textura, o tamanho, a cor dos mamilos. Seriam rosados, morenos da cor do pecado ou aquele tom bege mais claro típico das brancas de cabelo castanho como Lú?

Quatro da tarde, hora de ligar.

– Lú? Tudo bem? Sou eu, Mário.

– Eu sei que é você gato, tudo bem?

– Tudo ótimo, trabalhando muito, mas pensando em você. – Disse enquanto perdia a quinta seguida no Campo Minado.

– Sei, bobo, você ta jogando no computador, né?

– E-eu? Imagina! To cheio de trampo, agora é que dei um intervalo porque precisava muito falar com você…vamos sair hoje?

– Hummm…eu topo, vai, você não merece, mas vou quebrar essa…

Às 20:30 Mário estava em frente ao prédio da atrasada Lú. Entre um medo de assalto e outro, pensava nos peitos dela. Seria a porta de entrada para o resto do corpo. “Tome um peito e leve o mundo de brinde”, dizia Armando Luís, um amigo dos tempos da faculdade. Lú não tinha mais motivos para regular uma simples apalpada peitoral, afinal, o que tinha de mais? Era hoje e ponto final. Ele estava convencido.

Ela entra no carro às 20:42. Trajava uma minissaia preta esvoaçante e enlouquecedora. A blusinha vermelha de grife era dessas folgadas, com aplicações brilhantes e cortes assimétricos esquisitos, deixava claro que mais uma vez ela não usava sutiã. Amém. Mário não conta conversa e tasca um beijo carnavalesco em Lú. Partem para o Moquifo, um dos inúmeros botecos cariocas de São Paulo. No caminho pouca conversa e um amasso a cada semáforo.

– Mário, o que isso? Tira essa mão daí! – Era o primeiro avanço manual dele rumo aos esplendorosos.

– Pô, desculpa, mas Lú, já estamos saindo tem um mês e até agora não passamos de uns beijinhos…colé?

– Era só pra isso que você queria sair hoje comigo? Vira à esquerda na próxima e me deixa de volta em casa.

– Lú, quando um homem e uma mulher estão saindo juntos, trocando beijos em público e começando a gostar um do outro é normal que haja alguma interação sexual entre eles, sabe…

– Nessa aqui à esquerda.

O carro retornou ao prédio de Lú. Mário ainda resmungou mais algumas argumentações, mas Lú ignorava-o solenemente. Não houve despedida, ela simplesmente abriu a porta do carro e sumiu portaria adentro.

– Por que fui inventar essa obsessão pelos peitos? – Ele refletia sozinho, já sob o efeito da quinta cerveja no balcão do Moquifo – Foi culpa da Daniela, ela é quem botou isso na minha cabeça hoje de manhã…

Pagou a conta. No meio do caminho decidiu passar no apartamento de Daniela, o prédio ficava no caminho da sua casa mesmo e uma visita íntima seria uma excelente forma de terminar a noite. Passou devagar com o carro para conferir se a luz do quarto estava ligada. Não estava, mas a iluminação da rua refletia algo brilhoso jogado na janela. Olhou melhor e percebeu ser uma blusinha de grife vermelha, droga, e com uns cortes assimétricos.

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2 Responses to “Peito”


  1. 1 Alexandre Inagaki fevereiro 21, 2007 às 11:58 pm

    Ôpa, pode atualizar a URL que eu também acabei de mudar o endereço do meu blog! :D

  2. 2 Tylon fevereiro 22, 2007 às 5:40 pm

    Vocês dois são uns vendidos, isso sim. Pronto, falei!


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