Alvorada

Quarta de cinzas, final da manhã. Antes de seguir para o local onde alugo minha força de trabalho, passo na farmácia a fim de resolver as últimas seqüelas de um nefasto torcicolo contraído após estratosférica noitada no Milo Garage de sábado para domingo (não, ainda não vendem torcicolo por lá, o problema ocorre na hora que você chega bêbado em casa e se joga de qualquer jeito na cama – desta última vez dormi em formato de pintura rupestre, ainda com os trajes da esbórnia). Seguindo as instruções de uma amiga médica, adquiri Tandrilax, analgésico com nome de dragão medieval.

Saindo da Farmalife (pergunta: quantas Farmalife você acha que existem no Brasil?), sigo pelas horrorosas calçadas da avenida Lins de Vasconcelos. Devido às oito ou nove experiências de assaltos sofridos anteriormente, eu desconfio de qualquer, eu disse qualquer pessoa que vejo na rua. Analiso alguém dos pés à cabeça em frações de segundo e, antes que você pisque ou peide, já tenho mentalmente uma impressão sobre quem está ao meu redor, possíveis rotas de fuga e reações verbais plausíveis em caso de abordagem. Por isso tudo eu notei os 3 sujeitos encostados na grade do parque na esquina com a rua Vergueiro. Dois deles pareciam irmãos e escutavam atentamente o terceiro, um careca baixinho com cara de despachante e/ou trambiqueiro. Não pareciam perigosos, o que me chamou atenção para a cena foi a dobradinha topete/mullet de um dos irmãos e a calça jeans mamãe-tô-todo-coladinho do outro. Esperando o sinal verde de pedestres, ouvi a conversa.

– …cês acham que o Zezé di Carmargo começou cantando pra dér mil pessoa? – Dizia o baixinho.

– Não, claro que não – Concordava humildemente um dos rapazes, com aquele jeito caipira medroso de ser.

– Então mano, sexta-feira cês começa aqui, de meia noite até umas duas da manhã, vai ser sucesso e cês ainda descola umas minas, tô dizendo…

– Mas cê num libera nem uns cinquenta conto pra nóis?

Sinal verde, atravessei a rua. Liguei o iPod, coloquei no Cartola, ótima trilha para quarta de cinzas.

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2 Responses to “Alvorada”


  1. 1 Madel fevereiro 23, 2007 às 10:53 pm

    Isso me lembra o Conversas Furtadas, tu conhece? Ótimo e viciante.


  1. 1 Rupestrinos & Cavernosos « Trackback em junho 20, 2007 às 6:17 am

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