Glu

Qual a coisa mais inútil que você não aprendeu na escola? Eu respondo de imediato: logaritmo (a grafia correta não possui acento no “i”). Lembro que na época onde o professor tentava inutilmente transferir seu conhecimento sobre o tema, eu fazia questão em não aprender aquela patacoada, já raciocinava sobre o desperdício de tempo que eu estaria cometendo caso tentasse entender aquela inutilidade.

A irrelevância do logaritmo é tão grande que nem fiz questão de procurar uma definição para ele no tio Google. Ele não precisa de definição simplesmente porque nenhum josé mané está interessado em saber do que se trata, pois não fará a mínima diferença na vida de ninguém, a não ser que você atue como engenheiro mecatrônico ou matemático sensitivo. Ah, você não apenas sabe definir como sabe também resolver problemas envolvendo logaritmos? Cara, e daí?

Veja bem, eu aposto 2 (dois) reais com você aí que sabe tudo de logaritmo como você só aprendeu direitinho a parada na faculdade, não? Pois é, então responda por que, cargas d’água, éramos obrigados a saber esse tipo de coisa no segundo grau? Posso estar errado, mas acho que seria uma idade boa para uma escola tentar formar futuros adultos com um mínimo de senso crítico, pensamento racional e noções de civilidade, deixando essas tecnicalidades para o futuro curso de quem escolher trabalhar em áreas cientificamente exatas.

Boa parte das tardes onde eu não estava perdendo tempo com o decoreba burro do sistema educacional brasileiro, eu passava na casa dos meus avós maternos, um casarão do início do século XX, localizado no bairro da Cidade Velha em Belém, em frente à casa dos meus pais. No quintal, imenso, meu avô criou tudo quanto é tipo de bicho: cachorro, gato, pato, galinha, periquito, capivara(!), faisão, garça, pavão, macaco, papagaio, coelho, tartaruga, jabuti, tucano, peixes dos mais variados e até um filhote de jacaré apareceu por lá, lembro até hoje do bichinho com uma corda amarrando sua boca. No mesmo dia meu avô despachou a coisa fofa pro museu (Emílio Goeldi, o zoológico de Belém). A imensa maioria da fauna da casa era “presente” que meu avô recebia pela fama de ser “aquele senhor que tem um monte de bicho em casa”. Hoje penso que os animais apareciam por lá vindos de mãos ilícitas, que provavelmente temiam fiscalizações do IBDF (hoje Ibama) e tratavam de despachar as criaturas nas mãos do primeiro que aparecesse.

O peru (sem trocadilhos, por favor) era um dos bichos que eu mais gostava no quintal (já disse, sem trocadilhos!) do vovô. É uma ave bizarra e de pouco apuro estético: corpo gordo e desproporcional às patas e cabeça, as penas são escuras como de urubu, o rabo lembra o do pavão, mas sem sua graça, tamanho e veadagem, sem falar naquela estranha papada de pele vermelha abaixo do bico. Pra completar, ao emitir qualquer sinal sonoro esquisito ao lado dele, o bicho solta aquele “glu-glurpf-glurrhh”. Por tudo isso, eu tenho tanta pena (sem trocadilhos, droga!) de comer um peru quanto tenho de um coelho. A diferença é que nunca comi um coelho e não tenho coragem para isso. Já o peru com fritas, farofa, queijo e presunto fica sensacional. Desde que provei a iguaria em um distante natal qualquer, para diminuir minha culpa tento apagar da memória a imagem daquela simpática ave que, assim como eu e você, jamais precisou de um logaritmo para alcançar o sucesso.

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6 Responses to “Glu”


  1. 1 Nana março 14, 2007 às 1:14 pm

    Bem, aprender o ciclo reprodutivo de uma samambaia também não é das coisas mais úteis a se aprender…

    Mas sabe que no domingo passado tinha um casal na piscina do meu prédio, com um livro e discutindo sobre logaritmo?

    Curioso..

    Beijo, vizi!

  2. 2 Tylon março 14, 2007 às 3:25 pm

    “O peru (sem trocadilhos, por favor) era um dos bichos que eu mais gostava no quintal (já disse, sem trocadilhos!)”

    Que porra de censura é essa? Comigo não, violão.

    Ê DODA, QUÉ DIZÊ QUE TU GOSTAVA DO PERU QUANDO CRIANÇA? RÁ!

  3. 3 Cássio Marins março 14, 2007 às 7:01 pm

    Ok, sou engenheiro, confesso que só entendi logaritmo na faculdade, ainda mais, eu só usava quando um professor mandava, mas não tinha certeza da razão de estar usando o dito cujo em um cálculo de engenharia, apenas lembrava das situações necessárias para o uso e pronto, e está dando certo até hoje e desafio meus colegas de profissão que não sejam nerds a provar que não agiram desta forma.

    Desculpe mas eu não resisito, quer dizer que quando você levava a gente para fazer trabalho na casa da vovó era desculpa para ver o tão admirado PERU!

  4. 4 Iuri março 14, 2007 às 8:25 pm

    Egua… tah foda pra ti. Papada vermelha? Abaixo da cabeça? Sei…
    Primeiro é o post do maqueador, agora do peru.

    huahuahuaahahuauhahuaaahuahuahuauhahuahaahuauhauahuaua!!!

  5. 5 flá março 14, 2007 às 10:18 pm

    mas, e o peito de peru defumado, heim?

  6. 6 karla nazareth março 16, 2007 às 3:35 am

    logaritmo eu só estudava de véspera e só não morria no outro dia porque, nessa época, eu era muito desenvolta nas colas. caso contrário, eu teria me lascado na véspera mesmo, como todo peru que se preze e que não sabe logaritmo.


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