Pela chatice consciente

Eu sou um chato de raiz. Desde moleque, involuntariamente, eu já era chato. Por exemplo, mesmo criança eu odiava Goonies. Como você, já vi trocentos filmes ruins, mas filme ruim é uma coisa, filme chato é outra. Um filme pode ser chato sem ser ruim e vice-versa (retomarei o assunto outro dia). Goonies, por exemplo, não é ruim, mas é chato pra caralho. A quantidade de arquétipos, clichês e sacadinhas pré-fabricadas para virar ícone pop-cultural adolescente são de entupir os colhões. Aquele gordinho do chocolate é um dos top 5 personagens mais pé no saco da história do cinema, eu queria muito que a família de mafiosos desse cabo nele rapidinho, mas como se trata de um filme chato, isso jamais aconteceria. Em filmes chatos só acontecem coisas chatas e matar um gordinho simpático não seria chato. E o casal de crianças do Jurassic Park? Eu torci demais para o T-Rex imbecil devorar aqueles seres gritantes, mas, infelizmente, era um filme do Spielberg, o mesmo cara que acha razoável um homem passar anos dentro de um aeroporto esperando para completar uma coleção idiota de lembranças de jazz do pai que já morreu.

Hoje em dia tudo bem, sou chato por opção e tenho consciência, certeza e orgulho de ser chato, porque nada é mais chato do que o chato que não sabe que é chato. Lembre aí dos seus amigos e conhecidos que são chatos. Os que não sabem disso são os piores, ou estou errado? Aliás, você mesmo pode ser um chato que ignora sua própria condição. Calma, se até a Gretchen mudou de profissão depois dos 80 anos você também pode reverter sua condição de chato inconsciente. Isso é importante para que você saiba exatamente qual seu tipo de chatice e quando ela pode ou não ser conveniente.

Por exemplo, eu odeio sol, praia, calor e ritmos musicais normalmente associados a essas palavras. Logo, a minha presença em um grupo de amigos que vai se divertir na praia em feriadão seria potencialmente nociva tanto para a minha própria saúde quanto para a dos meus amigos, ou seja, pelo bem de todos evito tal tipo de programa, é uma situação onde minha chatice não é necessária. Por outro lado, eu também odeio malucos diversos que me abordam em mesas de bar tentando vender coisas ou falar merdas diversas (poetas e músicos fracassados incluem-se aqui). Tem gente que os tolera e até gosta, mas a maioria das pessoas não curte, ou seja, nesse caso posso fazer uso socialmente responsável da minha chatice e mando o cara à merda ou ameaço uma agressão física com o gargalo da garrafa (obviamente eu jamais conseguiria quebrar a garrafa no ponto exato para que seu gargalo vire uma arma, mas a sensação de pegar a garrafa pela ponta e ameaçar uma hostilidade é bem divertida, me sinto em uma música do Matanza).

Nos estádios de futebol também descobri situações onde devo guardar minha chatice no bolso. Certo domingo, em certo Campeonato Brasileiro da Segunda Divisão na década de 90, Meu querido Remo, Filho da Glória e do Triunfo, enfrentava o União São João de Araras em Belém e perdia por 2 a 1 até os acréscimos do segundo tempo. Cumprindo sua obrigação de time da casa, o Remo não dava descanso ao time paulista e tentava o empate a todo custo. O juiz dava uma forcinha: os remistas sentavam a porrada nos adversários e não saía um mísero cartão amarelo, sendo que os adversários já haviam sido punidos com duas expulsões. Lá pelos 48, remista caído na área, o juiz marca pênalti. Na arquibancada eu estava muito próximo de onde o lance ocorreu, vi claramente que não foi pênalti e ainda por cima marcado aos 48 minutos. Apesar de ter comemorado a marcação, não resisti e disse “o juiz tá comprado, o cara se jogou”, ou seja, encarnei aquele chato estraga-prazer, mesmo que estivesse apenas constatando algo óbvio. Só não fui espancado no meio da arquibancada porque logo depois da minha infeliz declaração o pênalti foi convertido em gol. Hoje em dia prefiro ver futebol na TV, mas caso vá ao estádio me limito a gritar gol ou xingar a mãe do juiz por seu nome mais conhecido.

Caso você tenha dificuldades em identificar seus momentos de chatice ou como as pessoas percebem estes momentos, fale comigo, eu posso ajudar, sou chato profissional (sim, sou pago para ser chato, afinal sou publicitário). O importante é encaixar sua chatice de maneira útil no mundo.

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2 Responses to “Pela chatice consciente”


  1. 1 Tylon março 20, 2007 às 11:05 am

    “mesmo criança eu odiava Goonies”

    Não me liga mais.

  2. 2 Fábio Caparica de Luna maio 23, 2009 às 4:16 pm

    Ser chato é uma arte que o “politicamente correto” vem obscurecendo. Não é para poucos…


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