Incompletos I

(pedaço de algo maior, encontrado no vasculhar do HD com leve fundo de realidade)

Enquanto ele acordava ao som do History Channel e seu documentário sobre helicópteros Apache, ela sobrevoava o Rio de Janeiro, caminho do Galeão. Cantarolava um desses artistas moderninhos, filhos de nomes famosos da MPB, mas ao olhar a cidade do alto, como qualquer outro mortal, foi inevitável pensar no Samba do Avião. “Minha alma canta / vejo o Rio de Janeiro…”. Na sacola de mão, ao lado do iPod desligado, uma saudade do tamanho da barra de cereal que acabara de comer. Tinha alguma ligação com ele, o cara que havia acordado no outro lado da ponte aérea com a TV ligada no History Channel. Mais tarde pensaria a respeito.

Depois de afivelar o cinto, sacou a câmera e procurou um bom ângulo do Rio pela janela, com pedaço de mar de preferência. Saiu um borrão, esquecera de desligar o modo macro da câmera. Lembrou que sua última foto era do rosto dele enquanto dormia bêbado no táxi, noite anterior em São Paulo, por isso havia ligado o macro. Aliás, por que não olhar rapidamente as imagens arquivadas? Amigos no bar. Poses, uns sorrisos. Fotos engraçadinhas depois de algumas cervejas. Foto dos dois, ela e ele, e mais outra e outra. Mais uma. Agora uma seqüência só dele. Por que ela havia tirado tantas dele? Talvez por causa do sorriso, do cabelo, do jeito. Talvez algumas sejam apagadas, ficaram ruins, ele não é tão bonito assim para merecer todo esse espaço no cartão de memória. Essa frase era dele, uma piadinha de uns dois anos atrás. Só ela ria.

Ela não gostava de pensar em relacionamentos. Lembrava de seu último namoro, longo tipo clássico, iniciado em uma sexta com a conta do restaurante em 180 reais, terminado em domingo, no sofá, junto com o troco pra 30 da pizza. Desde então preferiu sorrir sozinha, ou melhor, distribuir sorrisos e lotar os bares da rua da amargura de homens que enchem a cara e o saco dos garçons, contribuindo também para o aumento do lucro das operadoras de telefonia celular nas madrugadas.

Adora falar e sempre carrega na bolsa um bom número de tiradas e gracinhas. Trabalha com música, um desses empregos difíceis de explicar pros pais exatamente do que se trata, mas envolve horas em estúdios, credenciais e gente estressada de camisas pretas com a estampa “produção” nas costas. Ela nunca responde nada diretamente, “é mais divertido assim”. Após o pouso, pegou as malas e um táxi.

– Bom dia, é no Leblon, Rua Rainha Guilhermina, 177.

– Pois não, vamos lá.

Colocou os fones de ouvido. Léo Maia, Max de Castro, outras chatices. Percebeu que o taxista falou algo. Tirou um dos fones, pegou a frase pelo meio.

– …o número do endereço então é na verdade a distância em metros do começo da rua, a senhora vai pro 277, né?

– Rainha Guilhermina, 177.

– Isso, 177. Então, fica aproximadamente a cento e setenta e sete metros do começo da rua, entendeu?

– É mesmo? Nunca tinha parado pra pensar nisso. – Ela completa, surpresa.

– É uma curiosidade tipo a numeração de sapato…a senhora calça quanto?

– 36.

– 36 o que? Centímetros?

– Sei lá.

– Pois é, eu calço 41, mas 41 o que?

– É, 41 o que?

– Eu também não sei, pensei nisso agora.

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1 Response to “Incompletos I”


  1. 1 Kandy junho 2, 2007 às 9:53 pm

    Gostei muito do seu jeito de contar, e da história, e da personagem, e da cadência das palavras. Esse conto pára assim, como o pensamento dela interrompido por dúvidas cotidianas? ;-)


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