Feriado

Ainda não entendi o que faz as pessoas gostarem de passar horas no sol expostas a raios solares nocivos. Torrar a pele na praia é uma vaidade pessoal inútil que mais tarde fará a alegria de clínicas estéticas especializadas em tratamentos de pele e colocará dificuldades na sua relação com a própria auto-estima, “ai, minha pele está um caco”, “nossa, como a fulana envelheceu”.

Praia também provoca micoses, exposição excessiva à música ruim em alto volume, constrangimentos visuais involuntários devido aos formatos corporais desfavoráveis (seus e de terceiros) e grande risco de furtos e assaltos (a não ser que você curta caminhar 8 quilômetros a pé – incluindo trilhas no mato e subida de morros – atrás “daquela prainha escondidinha que ninguém conhece” e, mesmo assim, ninguém garante que um nativo mal intencionado da região não tentará surrupiar uma bolsa ou a Cybershot de 5 megapixel).

Falando nela, a prainha escondidinha que ninguém conhece, esta também é um mistério para pessoas como eu. Você demora horas sofrendo em lombo de burro, navegando em barquinhos de madeira carcomida, enfrentando mato, espinhos, pedras e animais peçonhentos (quase sempre seminu, descalço ou de havaianas) para chegar em um lugar sem comida decente, sem bebidas geladas e a quilômetros de um banheiro utilizável em condições mínimas de higiene e conforto. Tudo isso para exatamente o que? Passar horas aumentando a probabilidade de adquirir um câncer de pele e observando trilhões de litros de água salgada movimentando-se basicamente da mesma maneira que fazem há cerca de…qual a idade da terra mesmo…4 bilhões de anos?

Se o caso não é fuga total do conforto da vida urbana, provavelmente a opção é uma cidade do litoral mais conhecida e com infra-estrutura mínima para a recepção de seres humanos que buscam a promessa de lazer por alguns dias. O problema é que, pensando exatamente da mesma maneira, existem algumas outras centenas de milhares de pessoas. Então esses dias longe da estressante rotina das grandes cidades, tornam-se dias próximos da estressante rotina das cidades cu-do-mundo. Sendo que, na sua casa de verdade, não é necessário dividir o banheiro com outras 19 pessoas e você não precisa dormir em um colchonete.

E o calor, o que diabos faz alguém gosta de calor? Que tipo de prazer sente uma pessoa em expor sua cabeça, tronco e membros a temperaturas acima dos 30 – muitas vezes 40 graus Celsius? Qual o problema em usufruir dos avanços industriais da civilização e desfrutar a vida em ambientes refrigerados, providos de energia elétrica e que possibilitam ao menos o funcionamento de um ventilador?

Outra coisa que me intriga são os comportamentos praianos. Claro, as pessoas precisam de justificativas para o ato insano de estar ali naquele local sem absolutamente nada para fazer e inventam esquisitices diversas que proporcionam hematomas, escoriações, danos estomacais e prejuízos materiais ao seu patrimônio. Vejamos o exemplo do frescobol: uma bolada mais forte daquela porcaria na bolsa escrotal pode deixar um macho saudável estéril, quer dizer, se é que algum macho de verdade se propõe a ficar jogando aquela bobagem ao invés de disputar saudáveis – e quem sabe lucrativas – partidas de pôquer ou truco à sombra de um bom guarda-sol. Pior que o frescobol é a gastronomia de praia, esta ampla morada de prodigiosos vermes e extravagantes bactérias. O curioso é que mesmo após oito latas de cerveja, três caipirinhas, quatro mexilhões, uma coxinha de frango, dois cocos gelados com vodka e um saudável peixe frito mais oleoso que poço de petróleo kwaitiano acompanhado de suspeitíssimo molho vinagrete, o sujeito realmente acha que foi a última dose de pinga que não caiu bem. “Não era mineira”, repete terça-feira na firma, após ter faltado na segunda.

Abaixo, famoso caso ocorrido em uma das horrorosas praias do meu país natal. Foi no reveillon de 2005 em Salinas, praia do Atalaia, onde são comuns os casos de carros que atolam na areia molhada e são destruídos depois, quando a maré sobe. Ah, na praia o seguro não cobre, viu? Lembre-se disso na sua próxima fuga do caos urbano.

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