Brrr

A chegada do frio em Sampa é um dos grandes acontecimentos anuais da megalópole. Além de mudar a pauta das conversas entre desconhecidos no transporte coletivo e os comentários dos taxistas sobre o tempo, a imprensa trava uma incansável batalha sobre qual veículo conseguirá dar o furo de que ontem/hoje/amanhã “São Paulo teve/tem/terá a madrugada mais fria do ano”. Espantados como se vivêssemos a era do resfriamento global, os paulistanos olham para os termômetros de rua com um misto de surpresa e terror, “meu deus, 12 graus!”, como se não fossem acostumados com isso todos os anos. Sai do guarda-roupa o cheiro de mofo dos casacos e frases como  “amanhã chega outra frente fria” e “com o vento a sensação térmica é de X graus”.

Mas o frio não é feito apenas de lugares-comuns. Ele é identidade da cidade. É quando o paulistano se acha ainda mais novaiorquino, mesmo com pavor de parar em cruzamento na madrugada ou ser humilhado por uma abordagem policial truculenta. É o momento de perdoar o erro da cidade ter sido fundada em uma região tropical do planeta ou vingar-se dos cariocas por estar longe da praia, demonstrando a elegância e o refinamento que só as higiênicas temperaturas abaixo dos 18 graus tornam possível.

Mesmo resumido a um amontoado de mal ajambradas frentes frias argentinas, o inverno em São Paulo tem seus méritos. Além de livrar nossa vida do suadouro suíno que predomina na maioria dos ambientes internos da cidade (já que ninguém investe em sistemas de ar-condicionado para os meses quentes), a friaca é responsável pelos melhores momentos femininos do ano. As bonitinhas de janeiro são gatas em junho. Gatinhas de fevereiro ficam ainda mais lindas em julho. As que dispensam comentários em qualquer mês, bem, essas estão em Campos do Jordão acompanhadas de algum executivo de multinacional, jantando em um restaurante caríssimo e ouvindo o tedioso papo sobre vinhos que o cara espera o ano todo para arrotar no ouvido de alguém.

Abaixo, flagra da ousadia fashion do winter bandeirante no metrô. A foto é do meu celular, emprestado nesse dia para Messias Jardan, o malemolente fotógrafo de Ressaca Moral e nórdico por opção.

Tiozinho

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4 Responses to “Brrr”


  1. 1 Sarah junho 8, 2007 às 9:43 am

    O chapéu estilo Russo com estampa de dálmata realmente me causou frisson. Pela textura, é feito em pelúcia, estou errada? E ainda tem um rabinho. Nem John Galliano teria uma visão dessas.

  2. 2 Rodrigo Lupatini junho 8, 2007 às 5:07 pm

    Chama o IBAMA!!!
    Escalparam um bicho!

    Ô povo loco!

  3. 3 bloda junho 8, 2007 às 5:07 pm

    sarah,
    eu tentei perguntar onde ele comprou, mas aí já era a minha estação. permanecerá essa incógnita. penso que pode ser criação dele mesmo, quem sabe eu não estava diante de um estilista independente? sim, era pelúcia. o estilo lionela vem com tudo neste inverno, não se fala de outra coisa em belém do pará.

  4. 4 ELA junho 8, 2007 às 7:44 pm

    Doda Duda,
    depois deste post, tenho que confessar: já imaginei vários textos teus sobre as figurinhas “fashion-non sense-multi-texturizadas” que circulam por Londres.
    Tavez o dia em que virar gente grande como tu, ouse escrever sobre isso.
    ; )
    Beijocas


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