Greve

Minha rua possui pouco mais de 400 metros de extensão. É uma insignificante passagem de quem vem da Aclimação ou Cambuci em direção à Paulista, Centro ou Ibirapuera. Se a minha rua não existisse, não provocaria um mísero quilômetro de lentidão a mais nas estatísticas do tartarugoso trânsito paulistano.

Quando acordo, tradicionalmente abro a janela do quarto a fim de observar se o mundo está acabando ou não. Caso minha rua esteja engarrafada, como na manhã de hoje, é provável que uma tragédia de grandes proporções esteja ocorrendo. Ou os portais do inferno foram abertos e logo um agente do juízo final tocará o interfone do meu apartamento ou um criminoso de alta cotação no índice Datena de sensacionalismo barato foi transferido para o meu quarteirão, provocando o congestionamento.

Como bandidos de grosso calibre presos no Brasil são mais raros que Chevettes sem problemas de infiltração de água no distribuidor, logo concluí que a cidade estava mergulhada nas profundezas do caos. Pensei em buscar informações prévias antes de colocar o pé na rua, mas a NET acha que eu não preciso mais de TV e a Telefônica decidiu, 3 dias atrás, que meu telefone, e conseqüentemente meu Speedy, deveriam permanecer calados, mesmo com ambos os serviços pagos. Ora bolas, quem sou eu para reclamar, não é? Consumidorzinho audacioso de meia tigela, taca 20 minutos de espera com jingles publicitários nele e 10 minutos ao vivo de atendente em atendente até a ligação cair!

Desinformado, caminho até o ponto de ônibus observando todas as ruas próximas congestionadas. O que estaria acontecendo? A “facção criminosa formada nos presídios paulistas” voltou a agir? o monstro radiativo fecal do rio Tietê teria despertado puto com os baixos índices de crescimento do PIB? Não. Quando chego no terminal percebo que a ameaça de greve metroviária das últimas semanas foi concretizada. O metrô parou, jogando para a superfície 3 milhões de pessoas, mau humor e toques de celulares medonhos.

O coletivo que me transporta até o local onde minha força de trabalho é explorada, normalmente, trafega metade vazio durante todo o percurso. Hoje, só a fila no terminal foi suficiente para lotar o veículo. Ao entrar no ônibus, percebi que os lugares sentados atrás da roleta já estavam todos preenchidos. Rápido como um felino, escolhi um assento não-preferencial vago ao meu lado (para quem não anda de busão em SP: a maioria dos assentos antes da roleta são os marcados em amarelo, preferencial para idosos, gestantes, mães com criança de colo e pessoas com dificuldades de locomoção).

Ao sentar, percebi uma mancha, já seca, no piso do coletivo. O cheiro não deixava dúvida, era xixi. Provavelmente uma criança apertada deu trabalho para a mãe algum tempo antes. Já apoderado de um raríssimo assento não-preferencial antes da roleta e prevendo a lenta jornada até o trabalho, não me senti no direito de reclamar do odor, pior seria se eu estivesse em pé.

Em quase 30 minutos de viagem, o ônibus, que rodou três ou quatro quadras, já estava completamente acotovelado de gente – e com cheiro de xixi. Mesmo instalado em poltrona não-preferencial, a etiqueta não-verbal do transporte público institui que você deve ceder seu lugar para qualquer um de aparência frágil e/ou menos preparada para enfrentar as agruras de viajar em pé do que você.

Notei de pé ao meu redor: marmanjos trabalhadores, uma adolescente de origem asiática – que pelos livros e cadernos aparentava ser estudante, uma mulher na faixa dos 40-45 anos e uma senhora por volta dos 60. Nenhum ocupante dos assentos amarelos cedeu seu lugar para a senhora de 60 anos. Nenhum deles preenchia o perfil para ocupar o assento preferencial. Um dilema me foi apresentado: proporcionar à senhora de 60 anos uma viagem mais confortável ou eu mesmo passar duas horas em pé levando cotoveladas e agüentando solavancos? (pego o ônibus no ponto inicial e desço dois antes do ponto final, normalmente o trecho é percorrido em 40 minutos, mas com uma greve do metrô no caminho, as duas horas seriam muito prováveis).

Fiz um rápido julgamento pessoal: os marmanjos que se virem de pé, ok. A adolescente asiática é estudante, tem muito o que sofrer na vida ainda, então esquece. A mulher na faixa de 40-45 anos poderia ser uma usuária do metrô que estava no ônibus apenas por causa da greve, ela necessariamente desceria muito antes de mim, pois o percurso do busão só coincide com trechos de metrô até um 1/3 da viagem, ou seja, que fique de pé também. Mas, e a senhora de 60 anos? Bem, a obrigação de ceder o lugar seria de algum filho da mãe sentado em assento amarelo, existiam ao menos 10 deles naquele espaço antes da roleta. Certo, ninguém fez a gentileza. Ah, lembrei, estou de óculos escuros, mesmo com o cheiro de xixi posso fingir que estou dormindo e me eximir da culpa pela cena. Logo, logo esta senhora desce do ônibus ou um dos sacanas dos assentos amarelos cede o lugar, ainda tenho duas horas aqui dentro, então tchau, zzzzz.

Realmente dormi, normalmente faço isso mesmo. Abri os olhos algumas quadras antes da agência. Já até existiam lugares vazios no ônibus. A senhora de 60 anos ainda estava de pé, próxima do motorista. Paguei, passei pela roleta e fui trabalhar. Só mais um dia bem paulistóide.

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5 Responses to “Greve”


  1. 1 Rodrigo Lupatini junho 15, 2007 às 6:35 pm

    Honda Biz mais, com tudo ela combina!
    Só não combina com posto de gasolina!

    ;)

  2. 2 Jonas Felipe junho 18, 2007 às 7:32 pm

    Muito bacana seu blog, você escreve bem…

    Parabéns!

    :)

  3. 3 Jonas Felipe julho 3, 2007 às 6:25 pm

    Se quiser dar uma passadinha no meu blog, agora o endereço tá no meu nome rs…

  4. 4 Karina Vasconcellos agosto 29, 2007 às 1:13 pm

    Acho que ao falar da greve, poderia se centralizar mais na greve… e não em um comentário seu… Dizer quando foi, quanto tempo durou… Assim ajudaria bastante em trabalhos escolares!!!

    Obrigada

  5. 5 karina agosto 29, 2007 às 1:15 pm

    Desculpe-me…

    Penssei que se tratava da greve metroviária!!!

    Desculpe-me


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