Mizufio publicitário

Toda manhã, próximo do meu prédio, um cara magrelo de cerca de uns 30 anos e que, invariavelmente, traja algum modelo de camisa do Palmeiras, distribui panfletos da Mãe Adelaide. Multifunção, Adelaide garante resolver atravancos de ordem amorosa, financeira, familiar e impotência sexual masculina. Conhecendo o conteúdo do impresso por ter recebido o mesmo umas 30 vezes, sempre tento recusar o papel, até porque, como disse uma vez, se tenho problemas na cabeça que não sejam piolhos, prefiro trata-los pagando caro um psicólogo – profissional que investiu anos de estudo em algo cientificamente embasado, do que queimando trocados com uma tia que – por motivos que não me cabem julgar – optou pelo caminho das picaretagens ocultas.

Outro dia, quando o magrelo vestia uma camisa de goleiro do verdão (modelo São Marcos, claro), aceitei o papel mais uma vez, pois nem sempre consigo desviar da sua implacável distribuição. Percebi que o nome da protagonista do panfleto havia mudado para Mãe Nazaré. Das duas uma: ou – por motivos que não me cabem julgar –  Mãe Adelaide troca de nome de vez em quando ou o magrelo é um distribuidor profissional de panfletos contratado por uma cooperativa de mães místicas e, naquela manhã, espalhava especificamente os de Mãe Nazaré. Seja lá qual for o mistério do panfletário palmeirense, Nazaré também era o nome da “trabalhadeira” oficial de uma das primeiras agências de propaganda onde trabalhei.

Na época eu ainda não era redator, era assistente de arte (mudei de cargo quando percebi que redatores ganham o mesmo que diretores de arte e trabalham infinitamente menos). Novo na agência, comecei a me familiarizar com o folclore corporativo do local quando notei uma senhora baixinha, similar ao design clássico de um barril de desenho animado, ao menos uma vez por semana instalada no sofá da recepção da empresa.

Seria uma cliente da agência? Quem sabe não era a dona da Carinho’s Telemensagens, única da cidade a dispor em seu catálogo das exclusivas leituras de salmos bíblicos na voz de Cid Moreira e um dos primeiros clientes para os quais criei atentados publicitários. Pedi informações à recepcionista, também como desculpa para puxar assunto e quem sabe convida-la pra um happy hour.

– É a dona Nazaré, ela mexe com essas coisas de espírito. Vem aqui uma vez por semana, desde a história da sacola da caveira.

Sacola?

– Uns dois anos atrás, deixaram aí na frente uma sacola de supermercado. Dentro tinha um crânio pequeno, acho que era de macaco, e uma vela toda derretida em cima. Disseram que era macumba e indicaram a dona Nazaré pro seu Garibaldo (nome fictício do dono da agência). Ela veio fazer um trabalho de purificação aqui na época. Toda semana o seu Garibaldo dá uns 10 reais pra ela comprar as velas dele que ficam acesas o tempo todo lá no terreiro. Ela também faz umas rezas e cuida dos santos.

Santos?

– Os que ficam naquela sala dos fundos. Tem um altar lá com uns santos, umas velas e um monte de fitas coloridas.

A sala dos fundos. O depósito que estava sendo reformado e abrigaria o departamento de criação em algumas semanas, ou seja, minha futura sala. Rapidamente espalhei a história entre os colegas criativos. Eles precisavam saber que em breve dividiríamos espaço com São Jorge, Oxossi e Nossa Senhora de Lourdes.

– Jesus, eu é que não vou ficar lá! – Disse um.

Meio cético, pedi calma. “Com certeza vão mudar o altar de lugar, não tem cabimento uma coisa dessas”, completei. Na hora do almoço organizamos uma excursão até o depósito em reforma. Entre sacolas de cimento e latas de tinta, em um dos cantos, lá estava o altar: uma prateleira grande fixada na parede, cerca de um metro e meio de altura. Em cima dela, uns 4 ou 5 santos católicos variados (São Jorge marcava presença ao lado de um Sagrado Coração de Jesus, claro), umas 3 entidades negras (provavelmente do candomblé, macumba ou coisa parecida) e um Saci. É, um legítimo Pererê, de gesso toscamente pintado, devidamente sem uma perna e com gorrinho vermelho de feltro.

No chão, logo abaixo da prateleira, algumas velas coloridas de grossura erótica estavam acesas sobre um grande prato de barro.

Era tão bagunçado que se colocássemos um playmobil ou um brinquedo do McLanche Feliz ali no meio ninguém notaria (pausa para pensamento meu: seria legal uma linha de Sacis da McFarlane Toys, não? Pegando carona em Grindhouse, um dos bonecos poderia ter um fuzil AR15 no lugar da perna que falta).

Umas duas semanas depois, em uma sexta, avisaram que a mudança aconteceria no final de semana. Deveríamos levar todos os objetos pessoais, a galera da reforma carregaria mesas e computadores para a nova sala, mas na segunda nós teríamos que cuidar da arrumação final. Alguém foi conferir se o altar ainda estava por lá. Não estava. “Claro, não teria cabimento”, falei. Provavelmente havia sido reconstruído em outro canto da empresa.

Na segunda, passamos a manhã toda e boa parte da tarde cuidando da arrumação da sala, organizando livros, ligando computadores e resolvendo bugs (é incrível como computadores podem apresentar falhas de funcionamento simplesmente porque foram trocados de lugar). Como não havíamos criado nada dos trabalhos pendentes, resolvemos ficar até mais tarde para compensar o que deixamos de fazer durante o dia (como se ficar depois do horário em agência de propaganda fosse algo fora do comum).

Umas dez da noite, restavam na empresa eu e mais dois amigos diretores de arte (redatores sempre saem da agência mais cedo, guarde isso caso ainda seja estudante). A porta da sala foi aberta. Poderia ser o guarda noturno verificando quem ainda estava no prédio, mas não, era ela mesma: dona Nazaré.

– Boa noite meus filhos, não quero atrapalhar nada. É porque mudaram meu altar de lugar e falei pro seu Garibaldo que ia precisar fazer uma purificação aqui na firma. Ó, esse aqui é o Nildo, meu sobrinho e ajudante.

– Er…nós precisamos sair da sala? – Um dos meus amigos perguntou.

– Não, não, podem ficar tranqüilos, é só uma purificação. Vou começar lá pela frente e depois venho pra cá.

“Porra, vamo nessa, essa tia é doida”, argumentei inutilmente. Os trabalhos atrasados exigiam nossa presença e meus colegas acharam que a tal purificação era um processo simples que não nos afetaria, como garantiu dona Nazaré, cuja voz ouvíamos ao longe, rezando umas coisas estranhas em ritmo de canto de lavadeira nordestina.

Dez minutos depois, a porta da sala é novamente aberta, desta vez com certo grau de violência, provocando susto em todos. Dona Nazaré entra na sala rapidamente, arrastando os pés e portando uma grande panela cheia de pipocas. Ela olhava fixamente para o chão, cantava sua reza esquisita e jogava as pipocas pelo piso novinho da sala. Nildo, o sobrinho ajudante, também arrastando os pés e olhando fixamente para o chão, seguia Nazaré pela sala, espalhando as pipocas com uma vassoura.

Paralisados, meus colegas observavam a cena em avançado estado de catatonia. Eu, como sempre faço em ocasiões absurdas, fingia que nada extraordinário acontecia e continuava olhando para a tela normalmente, afinal eu estava ali para agilizar layouts e não para analisar rituais religiosos envolvendo milho estourado e vassouras velhas.

Tão rápida quanto a entrada, foi a saída da dupla macumbo-pipoqueira da sala. Olhávamos uns para os outros ainda sem saber o que dizer. Continuando a construção do meu personagem blasé, eu procurava alguma frase como “vê aí se a impressora tá ligada”, mas mal tivemos tempo de trocar um “que merda foi essa?”, quando Nazaré entra mais uma vez na sala em velocidade de lince, planta no pipocado piso uma espécie de cilindro, acende o negócio com uma vela e sai correndo. Instantaneamente a sala é tomada por uma fumaça branca (o cilindro era uma dessas latas de fumaça usadas por torcidas organizadas em estádios). Assustados, meus colegas deixaram a sala também em ritmo acelerado, querendo rir por um lado, mas visivelmente nervosos por outro. Novamente, optei por fingir que nada de anormal estava acontecendo e, placidamente, salvei meu arquivo e fechei o programa. Peguei minha carteira, o celular, a chave do carro. Saí da sala lagrimando, segurando a tosse, mas mantendo a pose. Encontrei os dois na calçada da agência. “Caras, to cansado, vou nessa. Se precisarem de algum arquivo meu, deixei o computador ligado, falou? Até amanhã”.

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2 Responses to “Mizufio publicitário”


  1. 1 Madeleine junho 22, 2007 às 10:03 am

    Deus do céu. Você não sabe o que é ter uma dona Nazaré dentro de casa. Minha mãe é uma esotérica fanática assumida. Um dia ela me avisou que ia aplicar princípios da cromoterapia em casa. Ok, achei que ela ia pendurar uns panos coloridos, sei lá. Quando eu chego do trabalho o MEU quarto estava PINTADO assim: chão vermelho, teto azul turquesa, uma parede laranja, uma amarela, uma verde e uma roxa. Eu juro que foi assim. Fiquei dormindo no cubo mágico até sair de casa. Por sinal acho que isto colaborou bastante p/ eu decidir sair de casa.

  2. 2 Kandy junho 25, 2007 às 11:47 pm

    Ai, ai, dei muita risada com a sua narrativa! Fiquei imaginando as cenas, achei hilário! E ri ainda mais com o comentário da Madeleine. “Fiquei dormindo no cubo mágico” foi ótima. Como é bom ler textos de pessoas criativas!


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