Legendas da paixão

Legendário é um adjetivo que gosto de usar ironicamente: fulana e sua legendária bunda, fulano e seu legendário modo fracassado de lidar com a vida.

De maneira geral, o adjetivo em questão também caiu em desuso. Ninguém diz que algo é “legendário” no cotidiano coloquial das suas conversas. Imagine o pai de família chegando em casa após o trabalho perguntando – “Francisco, mais velho integrante da minha prole, diz-me: está pronto o legendário macarrão de tua mãe?”. Não dá, né? Fora do contexto irônico fica esquisito, é como dizer seriamente pra namorada que ela é cheia “das nove horas” pra se arrumar.

Nas ruas de Sampa, no entanto, vejo cartazes promocionais anunciando a estréia de “O Legendário Miss Saigon”, a mais nova montagem mulato-tupinambá brega de um musical anglo-saxão brega (quando digo brega não falo no sentido pejorativo do termo, pois acho o musical uma manifestação artística extraordinariamente válida enquanto bosta).

Involuntariamente, mas de maneira esperada, a comunicação de um produto voltado para um público de alto poder aquisitivo, mas de baixa densidade cultural, apropria-se de termos tidos como positivos, grandiloquentes ou “chiques” para vender o seu peixe. É o caso desse “legendário” do Miss Saigon, afinal, para vender lixo caro e elaborado, você precisa de adjetivos que impressionem as pessoas que gostam de pagar caro por lixo elaborado.

O mesmo pode ser observado na comunicação de perfumes ou relógios de preços proibitivos. Tem coisa mais ridícula e parada no tempo do que anúncio da Chanel ou Rolex? E diabos, quem ainda usa um perfume Chanel ou relógio Rolex? Marta Suplicy no primeiro caso, Renan Calheiros no segundo. Mas não precisamos ir até o Jardim Europa ou Brasília para achar mais exemplos, basta olhar para o pulso de qualquer dono de bingo ou cheirar o cangote das senhoras sentadas na platéia da estréia de Miss Saigon.

Não sei porque insistem em remontar essas porcarias no Brasil. Lixo por lixo, eu pensaria em uma versão mais ousada do espetáculo, incorporando elementos típicos da nossa cultura na peça. Por exemplo, ao invés da história correr em Saigon no fim da guerra do Vietnã, o cenário seria o fim da guerra do Paraguai e o musical, apropriadamente, seria chamado Miss Assunción (alguém pode sugerir Señorita Assunción, mas vamos manter Miss, pois é uma adaptação do original em inglês).

Na trilha sonora, nada daquela palhaçada orquestrada, típica dos americanos, cheia de penduricalhos e salamaleques musicais. Em Miss Assunción, o ritmo é a Guarânia e claro, o samba, pois no lugar da orquestra temos a bateria da Mocidade Independente de Padre Miguel. O ator principal é uma escolha óbvia: Emílio Santiago, interpretando em alto, bom e fino som “…nosso apartamento, um pedaço de Saigon…”

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1 Response to “Legendas da paixão”


  1. 1 Madel julho 4, 2007 às 9:57 pm

    Como boa neurótica eu nunca saí do cinema no meio de um filme ruim; e só TOC justifica eu ter permanecido no teatro até o final do segundo ato da produção megalomaníaca Godspell, a pior peça que já vi. Pelo menos não tive que pagar pelas entradas, presente de algum inimigo que fiz questão de esquecer quem foi.

    O público deste tipo de “espetáculo” é o mesmo que lê Veja, Marie Claire e Você S/A; que acha que está bem informado porque assiste Jornal Nacional. Que se acha muito profundo porque assistiu O Segredo e leu Código Da Vinci. Lixo puro.


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