Hipócrates

Minha cota de indignação com a incompetência instalada no país já foi estourada há muito. Tento levar minha vida no limite da honestidade e bom senso, o que nem sempre é possível, já que a própria estrutura social e cultural do país foi construída em alicerces corruptos, sempre com o objetivo de ganhar alguma vantagem pessoal, danando-se o coletivo.

Você quer comprar um produto legalizado, pagando imposto e incentivando a geração de emprego formal, mas a carga tributária absurda e fora de contexto lhe joga no abismo da pirataria. Você gostaria de ser um bom policial na sua delegacia, mas a corrupção generalizada no seu distrito o transforma em mais um truculento achacador de pretos pobres ou em um honesto omisso (convite à filosofia: existe honestidade na omissão?). Na carteira de motorista você ia bem, até o momento que um fiscal mal intencionado reprova você de propósito, pensando nas notinhas que possam pular do seu bolso para convencê-lo a mudar de idéia. Na fila de entrada do show seu comportamento era exemplar, mas ao encontrar um conhecido uns metros à frente, você não resiste ao convite dele e, disfarçadamente, você adota o nome de João e recolhe seus braços, tudo para ganhar um tempo e entrar antes de alguns trouxas, que provavelmente fariam o mesmo que você, caso conhecessem alguém melhor posicionado.

Não acredito que o país tenha jeito. Não acredito que uma próxima eleição mudará alguma coisa de maneira significativa. Não acredito que alguém vá parar na cadeia caso fique provado que não foi falha mecânica no avião. Não é uma simples indignação média de leitor da Veja ou descrença de classe média fã do Jabor. Não acredito em nada disso porque não existe ambiente cultural no país para que algo mude.

Eu, você, seu pai, todos somos corruptos ou coniventes com a sacanagem. Somos um povo estelionatário por natureza. Somos ladrões, enganadores, dissimulados, preguiçosos e, pior de tudo, temos orgulho disso. É a principal característica nacional. Não estudar e pegar o diploma é legal. Safar-se “na conversa” da blitz de trânsito que flagrou a sua carteira vencida rende uma boa história no bar. Conseguir um cargo de 4 paus na secretaria sei lá das quantas – sem precisar aparecer na repartição – causa grande inveja.

Nada vai mudar no âmbito do “tudo isso que está aí” porque não é do nosso interesse que mude. Se o país começar a tomar jeito, aquele seu tio que fraudou o INSS vai preso sem direito à fiança e a sua mãe, coitada, entra em colapso emocional. Você não quer isso, quer? Até porque é o dindinho, “o dindinho não pode ir pra cadeia, tanto bandido solto na rua e querem prender logo o dindinho?!”. Lembra do seu amigo de infância que hoje tem uma empresa e ganhou licitação na base do favor? Pois é, ele também fica mal, o Carlão vai preso, bicho! E a sua irmã? Lembra da vez que ela ligou de madrugada porque a polícia achou aquele saquinho dentro do carro? Claro, não era dela, lógico que era daquela amiga, mas enfim, lá foi você soltar 100 contos pra turma do camburão não enquadrar sua mana. Então, se o país entra no rumo ela perderia a opção dos 100 contos e ia passar a noite dormindo na jaula de cimento. O que vocês iriam contar em casa? Furar fila, comprar jogo pirata, falsificar meia-entrada, não registrar em carteira o salário ridículo da sua empregada e pedir pro instalador da TV a cabo liberar uns canais a mais na base da “cervejinha” também seriam atitudes socialmente condenáveis, todas passíveis de punição moral ou penal. Foda, né?

Não quero dar lição, pois também faço ou convivo calado com diversas pequenas grandes corrupções cotidianas. Sei que é pedir muito, mas gostaria apenas de não mais ouvir, ler ou receber e-mails contendo comentários hipocritamente indignados, estarrecidos, putos e/ou convocando passeatas inúteis para aliviar/esconder culpas pessoais. Atire os ovos quando quiser, mas, por favor, verifique se alguém atrás não está mirando um repolho na sua cabeça.

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6 Responses to “Hipócrates”


  1. 1 Iuri julho 27, 2007 às 9:15 am

    Boa…
    =]

    é uma verdade incômoda… mas é uma verdade.

  2. 2 Sarah julho 27, 2007 às 12:01 pm

    dado às falhas de caráter que eu tenho por muitas vezes, aprendi nessa vida a sempre ser honesta a arcar com minhas responsabilidades como cidadã e como pessoa.

    Você sabe o que eu penso sobre carteiras falsificadas de estudante…

  3. 3 Wally julho 28, 2007 às 3:49 pm

    “Somos um povo estelionatário por natureza. Somos ladrões, enganadores, dissimulados, preguiçosos e, pior de tudo, temos orgulho disso” – Se você re-escrever isso em versos poéticos dá até pra encaixar no nosso hino nacional …

    :)

  4. 4 Fran julho 29, 2007 às 2:02 pm

    É isso cara. Isso me fez perder o pouco de amor que eu tinha pelo povo desse país. Hoje, não mais. Quero que sefoda todo mundo.

  5. 5 Pedrox julho 29, 2007 às 6:27 pm

    Esse é o primeiro texto sensato que leio a respeito dessa crise permanente que vigora no país. A gente culpa os políticos e exauta o “jeitinho brasileiro”, mas esquecemos que os políticos são representantes da população e o povo é isso aí, só não usa paletó.

  6. 6 Rafa agosto 1, 2007 às 3:42 pm

    Vi seu texto através do BlogFrases.

    Ótimo texto e sensado.

    Abraços,


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