Off Cannes

[não é um caso pessoal, ainda não tenho idade para tal]

Eu sou um publicitário falso-sofisticado. Todo publicitário é falso, mas nem todos os falsos são falso-sofisticados. Você pode perguntar: e os somente sofisticados? Simples, eles não existem, assim como não existem as pessoas sofisticadas.

Essa conotação do adjetivo sofisticado definido como “cool”, “de bom gosto” ou “refinado”, foi invenção nossa, dos publicitários falso-sofisticados. Uma grande mentira, objetivando imprimir glamour ao nosso estilo de vida e uma profundidade intelectual que nossa atividade está longe de ter. Pense, o que é um estilo de vida sofisticado? É pagar caro em roupas por causa de uma etiqueta, escutar os artistas resenhados na Folha e falar duas ou três frases feitas sobre culinária e enologia. Tudo ilusão, nós mesmos criamos esse mundinho clean com iluminação indireta para fazer a economia girar.

A sofisticação infla nossos egos e enche nossos bolsos risca-de-giz. Precisamos acreditar que nosso trabalho é algum tipo de arte integrante da cultura pop e também impressionar empresários e diretores de marketing de grandes empresas, afinal, todos eles procuram o estereótipo do publicitário falso-sofisticado para fazer a propaganda de suas corporações. Manter o espírito jeca original da minha família não paga uma prestação da Cherokee e muito menos a poltrona Bola dos irmãos Campana que já encomendei (minha arquiteta conhece um marceneiro ótimo que reproduz igualzinho, depois eu passo o telefone).

A sofisticação como estilo de vida começou nos 70, amadureceu, atingiu seu ápice no fim dos 80 e começo dos 90. Como eram lindos aqueles tempos. Os aparelhos de som eram mais baratos e saía tão caro importar um sofá decente que todos compreendiam caso o da sua sala fosse de Gramado mesmo. Também era mais fácil pegar menininhas. Bastava colocar a camiseta de manga comprida preta e o Tag Heuer no pulso que elas já sabiam que você era um publicitário falso-sofisticado. Hoje, qualquer estagiário de meio-vintém veste preto e essas moças não fazem a mínima questão de entender quando o relógio é suíço ou da 25.

Mas o momento é de drama. Nós, publicitários falso-sofisticados, atravessamos uma crise existencial. A maldita era digital acabou com nossas referências de sofisticação. Esse monte de artistas, escritores, cineastas, estilistas e (malditos sejam!) “publicitários de internet” que surgem aos montes toda semana, dilaceram sem piedade nosso loungezinho salmão de referências. Tudo em que acreditávamos de repente é classificado como reles clichê.

Caetano virou piada, Lulu não emplaca mais nada no rádio, aliás, a molecada nem escuta mais rádio! Dia desses descobri uma banda gaúcha de rock, Cachorro Bom ou Morto, algo assim. Achei que estava abafando ao contratá-los pra animar uma festinha na agência. Convidei meu filho, que só mandou um recado pela mãe: “pai, se liga”. Depois soube que ele chama a banda de velha. Culpa daquele demônio, o Soulseek. A festa acabou cedo, levei a namorada para assistir o Gotan Project, ela dormiu. Não se fazem mais meninas do atendimento como antigamente. Eu preferia quando elas não usavam piercing no umbigo e vinham com os seios originais.

Buenos Aires não é mais segredo pra ninguém. Meus restaurantes preferidos estão lotados de brasileiros recém-formados-casados. Ainda resta Santiago, mas não dá pra comparar. Qual a graça de trazer camisas do Universidad Católica na bagagem? Nós, publicitários falso-sofisticados, temos camisas do Boca ou do River no armário, mas não dispensamos um bom comercial de cerveja com piada de argentino.

E pelo amor de São Jorge (outra das nossas referências que virou farofa de praia), o que são esses comerciais com pentelhos querendo cagar na casa do Pedrinho? E essas imagens lavadas com atores ruivos ou loiros copiando propaganda argentina de cinco anos atrás? Onde estão os filmes com o Luiz Fernando Guimarães e o Pedro Cardoso interpretando textos repletos de piadinhas geniais? Nossos trocadilhos hoje em dia são motivos de demissão! Quem o Selton Mello está comendo pra aparecer em tantas campanhas ao mesmo tempo? E a voz do Abujamra, por onde anda? Seria o fim do nosso loft de certezas? É, colegas de Spot, que Washington esteja convosco.

Anúncios

0 Responses to “Off Cannes”



  1. Deixe um comentário

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s




Fitas pessoais e umas opiniões definitivas incertas. Qualquer coisa, dá um alô no doda.doda@gmail.com

@dodavilhena

Encontre

Arquivão


%d blogueiros gostam disto: