Das vergonhas

Sou mal humorado, falo muito palavrão e sou metido a escroto, mas possuo um bom coração. É sério, tanto que sinto vergonha pelas pessoas, muita vergonha. É preciso ter um mínimo de bondade para possuir tal sentimento. Então possuo um mínimozinho.

Um sábado à tarde desses, após manhã cansativa de faxina geral na residência com ajuda da digníssima (confesso que só limpei o banheiro e depois fiquei enrolando em frente à TV acompanhado de uma lata de cerveja), zapeamos o televisor até cairmos em um tal programa Sem Limite.

Édson e Náuseo (ok, os nomes não eram esses, mas pouco importa, se eu lembrasse dos verdadeiros você também não saberia de quem estou falando), uma dupla sertaneja, acabava sua dublagem musical e iniciava animada conversa com o apresentador.

– Então, o que vocês acham desses artistas que depois de fazer sucesso perdem a humildade?

– Ah, nóis num acha legal, não. Nóis num perdemo nada, ainda somo do povo.

Era exatamente o que pensei quando vi os dois.

O papo continua animado.

– E sabe, eu acho tão bonito o jeito de vocês do interior, vocês são puros, ingênuos e, até mesmo por isso, acredito que enxergam além do que nós da cidade enxergamos, sabe?

– Er, acho que num sabemo, não, hehehehehe…

– Vocês, por exemplo, já viram algo estranho no interior? Uma alma, um espírito?

– Ah, Saci! Eu já vi Saci, minha vó também via muito Saci, mas a cidade cresceu, né? Aí os bichinho tudo foge…

– Saci? Er…que interessante, então vocês acreditam em Saci?

– Ô, credito sim!

Antes que eu cavasse ainda mais fundo o buraco onde costumo me enterrar no sofá, mudamos o canal e caímos no final de uma tradicional matéria de economia onde consumidores são entrevistados no supermercado.

O repórter faz seu papel.

– …então o senhor já nota uma redução nos preços dos alimentos importados por conta da baixa do dólar?

E o consumidor, um tiozão bigodudo ao lado da esposa, responde sorridente.

– Com certeza!

A clássica resposta que denuncia a total falta de domínio sobre o assunto ou visa mascarar a sensação de “a única resposta que tenho é ‘sim’, mas preciso demonstrar maior envolvimento com a discussão”.

O “com certeza” é também grande provocador de vergonha alheia em mim. Cada vez que ouço tenho vontade de socar o repórter por ter deixado aquele pobre entrevistado em tamanha sinuca. Muitas vezes o abordado não tem como dizer não.

Como a senhora idosa que levou a neta para um show de teen rock. Fatalmente a edição classificará a velha como uma das “fãs de todas as idades” atraídas para o evento. Corta para o repórter no meio da multidão desesperada.

– Vale a pena todo esse esforço só para ver o show?

– Com certeza!

Droga, não quero mais falar sobre isso.

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5 Responses to “Das vergonhas”


  1. 1 Horionsys outubro 2, 2007 às 9:52 pm

    – Vale a pena todo esse esforço só para ver o show?

    – Com certe… – a veia cai no chão depois de tomar um solavanco escroto da multidão, e o repórter olha pra camera sem reação com o microfone na mão.

  2. 2 Fanny outubro 3, 2007 às 12:15 pm

    UHAUHAUHAUHUHAUHAUH,

    bah, eu tbm sinto vergonha pelos outros. Esses esquemas de entrevista enchedora de morcilha estraga muitas matérias.

    Fora os programas de rádio que colocam o ouvinte “no ar”, perguntas iguais para todos, um ou outro comentário engraçado e o clássico “manda um abraço pra quem?”. Tem que ser uma pessoa bem articulada para sair dessa “sinuca”.

  3. 3 °° Luluzim °° outubro 3, 2007 às 2:21 pm

    Hoje em dia é complicado assistir televisão…
    Ainda mais perguntar sobre a economia, com gente que nem se informa…

    Resumindo, praticamente NADA da televisão brasileira presta, povo mal informado, acha tudo uma beleza, se contenta com pouco…

    Ohhh país viu rsrs…

  4. 4 Frequentador outubro 3, 2007 às 4:57 pm

    COM CERTEZA!!!!! (hauhauahuahua…)

  5. 5 Irmã outubro 8, 2007 às 4:28 pm

    Talvez seja mal (ou bem) de família, mas também morro de vergonha. Agora dei pra ter vergonha no telefone também, com atendente de telemarketing. Quase sempre eu as odeio, mas na minha última experiência fiquei com vergonha por ela. Após um contato até amistoso, ela finalizou a conversa me oferecendo uma promoção totalmente grátis, bastava eu responder à seguinte pergunta: “qual é o cartão de crédito que lhe dá emoções em dobro, D. Ana? É o cartão XYZ ou é outro cartão?” Nossa, não ensinaram pra essas meninas que esse tipo de pergunta desperta a ira dos tolerância-zero de plantão? Como acho que ela deve ter sido xingada o dia inteiro por causa disso, e também porque eu estava de ótimo humor, respondi: “ohhh, é claro que é o cartão XYZ”… Ela ainda teve a coragem de dizer: “olha, parabéns, a sra. acertou e está automaticamente cadastrada na nossa promoção!” Essa menina não tem vergonha de pagar esses micos? Eu hein!


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