A tropa, a elite e o tapa na cara

O leitor Rafael Passos, do Rio (pá, pá, pá, pum!), mandou e-mail perguntando se já vi e o que achei de Tropa de Elite.

Eu vi, mas não estava a fim de achar muita coisa. Minhas opiniões sobre segurança pública eu já postei por aqui e, apesar de ser um tema pelo qual me interesso bastante, é algo que tem me cansado. É uma questão nacional que considero praticamente insolúvel, coisa para uns 30 anos, se começássemos agora. O problema é que nunca começamos.

Mas, sobre o filme e tudo mais, umas dropadas:

– Como filme policial é imperdível. Roteirão, direção correta e ao menos três atuações memoráveis: André Ramiro (Matias), Caio Junqueira (Neto) e, você já está careca de saber, Wagner Moura (Cap. Nascimento) – o mais novo integrante do hall da fama dos personagens pop nacionais.

– Alguém precisava mostrar o lado da polícia na questão toda sobre a segurança pública, o que sente um policial honesto frente ao cenário de corrupção que encontra e o que a adesão, ou não, a essa realidade pode gerar, no caso, gerou os delicados policiais do BOPE.

– Na minha interpretação, o diretor não acha nada daquilo bonito. Nem a corrupção generalizada na “polícia convencional” e nem o “heroísmo” bárbaro do Batalhão de Operações Especiais. O problema é que boa parte – talvez a maioria – do público não vê as coisas desse jeito, e pode terminar o filme com a (tosca) convicção (reforçada) de que a solução é invadir favela, torturar suspeito e matar bandido. Você mesmo pode pensar assim, mas não se culpe tanto, a cultura nacional colocou isso na sua cabeça desde que você era moleque e seus pais achavam que estávamos melhor nas mãos dos militares (só pra ilustrar esse parágrafo, veja isso aqui).

– Não morro de amores pela classe média, mas novamente ela é apontada como maior culpada pelo problema e de maneira tosca, pois na visão do Capitão Nascimento, o playboy maconheiro é o cara que financia o tráfico. Correto, o Maurício realmente é quem abastece a carteira do chefe do morro, mas achar que se esse cara parar de comprar droga o problema estaria resolvido é uma visão simplória da questão. Ou alguém realmente acredita que a absurda desigualdade social e a bagunça institucional brasileira não produziriam outras formas de criminalidade? Nos EUA e na Europa consomem-se muito mais drogas do que aqui e ninguém nunca ouviu falar de traficas londrinos mandando fechar o comércio ou que uma “facção criminosa que domina presídios” parou Los Angeles.

– Mas, mesmo discordando da visão de culpa do Capitão Nascimento, acho importante ela ser mostrada, pois revela e abre para a discussão como pensa um policial médio ou uma cabeça reacionária.

– Não sou desses chatos que gostam de proclamar que “o livro é melhor” mas, neste caso, fico com a versão impressa (“Elite da Tropa”, que não é a base do filme. São pesquisas diferentes, mas que tiveram as mesmas fontes, por isso as grandes semelhanças). No livro, a truculência policial não é confundida com heroísmo e, lá pelo final, o leitor percebe que o antes incorruptível BOPE já não anda mais tão nobre assim.

– E uma dica pra você que fuma cigarros diferentes desses que vendem na padaria: do jeito que o filme tem sido efusivamente aplaudido pela sociedade, existe a possibilidade de ser formada uma opinião geral de que você é o culpado pelo assalto do Luciano Huck e pelos seqüestros-relâmpago na entrada da garagem do condomínio, então esconda bem esse mato aí caso não queira levar uns tapas gratuitos da polícia e ainda ouvir aplausos dos transeuntes do outro lado da rua.

Rápido PS: já que falei várias vezes nele, é com orgulho que faço parte dos links no blog do Capitão Nascimento. Ainda não sei quem é o autor, mas é humor bem acima da média e que não merece boa parte dos leitores idiotas que comentaram em alguns posts por lá.

Rápido PS2: a trilha sonora do filme tem tudo a ver com o contexto apresentado e…só. Mas, como você já deve ter percebido, prepare-se pra escutar a porcaria da música-tema em tudo quanto é lugar.

Rápido PS3: vamos apostar em quanto tempo alguma rede varejista popularesca fará uma campanha alusiva ao clima do filme?Estão chegando as “liquidações de elite” e suas “tropas de preços baixos”, aguarde.

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7 Responses to “A tropa, a elite e o tapa na cara”


  1. 1 Fana outubro 10, 2007 às 12:03 am

    ainda não assisti, me recusei ver o pirata… filme brasileiro, só na telona ou dvd original!!!

  2. 2 Francine outubro 10, 2007 às 2:46 pm

    como nóis tamo aqui no interiorrrrr, a coisa num chego… mas tb to curiosa pra ver o filme-bafão do ano….
    bjo!

  3. 3 Rachel Juraski outubro 11, 2007 às 9:13 am

    Ainda não o assisti. Mas é o filme mais hypado que me lembro em anos, ao menos no Brasil (os gringos tiveram o Snakes on a Plain).

    Se é bom ou ruim, sub ou superestimado, não sei. Mas que o Capitão Nascimento e suas linhas já entraram para o anedotário nacional de personagens, isso eu tenho certeza.

  4. 4 Nana outubro 11, 2007 às 11:08 am

    oi vizinho!
    cara, sou tua fã, sabia? hehee
    divulgo esse blog pro mundo inteiro!

    bjos

  5. 5 Caia Fittipaldi outubro 17, 2007 às 4:23 pm

    A MELHOR CRÍTICA QUE EU OUVI SOBRE “Tropa de Elite”, o filme, AQUI VAI.

    Um amigo meu me disse, dia desses, que esse filme parece uma viagem que ele fez com uma namorada dele que havia decidido se separar dele, mas queria dar uma última chance à relação. “Eu não tinha mais saco para discutir. E ela não largava do meu pé. Então fomos.”

    E foram viajar, os dois, pra, naquele fim-de-semana, acertarem tudo e poderem separar-se “como adultos”, como a moça tanto dizia que queria, a coitada, mas nunca que conseguia, a coitada, na 2ª feira seguinte.

    “Foi horrível aquele fim-de-semana, a coisa mais chata. Foram dois dias e duas noites inteirinhas de chorar e foder, chorar e foder, chorar e foder, chorar e foder. Foi horrível. É a cara desse filme. Tô fora.” [pano rápido]

  6. 6 bloda outubro 17, 2007 às 4:56 pm

    caia,
    assim, eu juro que não entendi, mas imagino que seja algo negativo :-)

  7. 7 Lucas outubro 24, 2007 às 12:48 pm

    Cara, teu posicionamento sobre o filme é muito parecido com o meu.

    Parabéns pelo blog, ta favoritado.


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