Toscos e tranqueiras

O tosco me atrai. Sou apreciador da tosqueira desde muito novo, mas era uma manifestação inconsciente do que viria ser um gosto pessoal dos mais refinados.

Ainda criança, dois filmes fundamentaram a base da minha toscografia para o resto da vida.

The Warriors – Os selvagens da noite (o subtítulo em português é um plus tosqueante para qualquer filme) de 1979 é uma pérola trash das mais cultuadas no mundo todo. Freqüentemente, era o filme exibido no melancólico Domingo Maior da Globo. A trama, como você talvez lembre, girava em torno da gangue de rua novaiorquina chamada The Warriors e sua agoniante tentativa de retorno do Bronx para Coney Island, na região metropolitana da Big Apple. Injustamente acusados de assassinar o líder dos Riffs, Cyrus, durante uma grande reunião de gangues, os guerreiros passam a ser perseguidos por todas as outras turmas marginais da cidade. O charme da película só é completo quando você assiste a versão dublada em português, na qual, em uma inteligente sacada, as gírias da bandidagem americana foram substituídas por termos do jargão malandro carioquês. Crássico.


A mitológica cena do líder dos Rogues chamando os Guerreiros pro quebra-pau. Dublado, claro.

O ultra-referenciado, idolatrado e sacramentado Monty Python e o Cálice Sagrado foi o outro grande marco tosco da minha existência. Vi pela primeira vez com uns 9 anos em VHS, legendado, ainda sem entender a dimensão daquilo tudo. Não fazia a mínima idéia de quem eram aqueles caras e de como eles fariam toda a diferença no meu senso de humor futuro. Tudo bem que muito antes, em 1966, Mario Monicelli, filmou o fantástico O Incrível Exército de Brancaleone, mas o Monty Python foi o grupo pioneiro na descoberta da estética tosca em escala industrial, do uso do tosco de maneira planejada e estratégica. O cálice é pra ver e rever, legendado e, assim como qualquer boa tosqueira, a versão dublada em português também.


Não é uma das cenas mais lembradas do filme, mas está aqui porque…


…essa versão da mesma cena em lego é genial.

Já na pré-adolescência, desenvolvendo meu gosto pelo rock, o Iron Maiden fez parte da minha formação como homem (e leitora, caso o seu namorado/noivo/marido não tenha gostado de Iron Maiden na adolescência, separe-se já antes que você o flagre na cama com o Jorginho, seu cabelereiro). Apesar das vendagens estratosféricas de discos, grandes turnês e milhões de libras, dólares e ienes no bolso, o Iron jamais conseguiu produzir um único clipe capaz de receber o adjetivo bom. Todos, sem exceção, são toscos, feios, de mau gosto e, por isso mesmo, divertidos. Esse aí em baixo é de 1990, uma música de pouco sucesso chamada Holy Smoke.


Nesse post do ano passado, postei uma outra anedota do Iron em que uma mulher-pássaro prateada bota um ovo.

O Iron, assim como The Warriors, é um caso de tosco roots. É o tipo que acredita naquilo que está fazendo e que, mesmo com milhões de referências culturais de bom gosto disponíveis para consulta nos mais diversos meios, acaba produzindo podreira porque nem imagina como fazer de outra forma, pois não adianta entregar um Stradivarius pro pagodeiro Belo tocar.

Em propaganda, a ocorrência do tosco de raiz também é muito comum. Veja o imperdível exemplo abaixo.

Mas cuidado, o caso acima merece atenção maior. Pode não se tratar de um tosco roots (mas acredito que seja). Visando baratear custos de produção e sabendo do potencial de sucesso de uma boa tosqueira, muita gente tenta produzir algo tosco falseando uma ingenuidade que aquela idéia não possui.

Nessa categoria podemos encaixar, por exemplo, o Latino. Um tosco mainstream que sabe muito bem o que está fazendo e não soa genuíno justamente por causa disso: sua arte exibe uma toscalidade que não se admite como proposital.

Não era o caso do sumido cantor Falcão. Ele também era um tosco mainstream, mas sua opção comercial pelo tosqueira não era disfarçada, pelo contrário, era um orgulho escancarado.

Já na internet, uma realidade involuntariamente escondida pela grande mídia veio à tona: o mundo é tosco.

Passeando rapidamente pelas redes sociais, em especial Orkut e Fotolog, percebe-se claramente uma maioria de usuários com perfis de composição essencialmente tosca. São fotos na praia com intervenção de frases em verde-limão, o texto do filtro solar colocado como about me, pretensas modelos posando em casas decoradas por móveis tubulares, imagens do churrascão do final de semana, baleias vestindo biquínis, leões-marinhos trajados de regata, gatinhos fofinhos, gifs animados, coisas pulando, coisas brilhando, uma overdose de tosqueira.

A banalização do tosco tira um pouco o charme do gênero. É cada vez mais difícil impressionar um fã do estilo, pois atualmente já vimos de tudo, seja no campo do tosco roots-ingênuo-de-raiz como também na seara do tosco-hermes-&-renato-wanna-be.

Ah, sei lá, vou comer.

Anúncios

4 Responses to “Toscos e tranqueiras”


  1. 1 Frequentador outubro 19, 2007 às 2:21 pm

    Eu nunca tinha pensado no tosco como um padrão de estilo.
    Abordagem interessante…

  2. 2 Rodrigo Lupatini outubro 20, 2007 às 11:48 am

    Bom, não sei se você já viu este, mas em todo caso aqui vai:
    http://br.youtube.com/watch?v=9Ro0iaEW1Rc

    O Hulk na Mearim Motos.
    Tosco.

  3. 3 Fanny outubro 20, 2007 às 1:40 pm

    BAH! viva a tosqueira. Mas cara, eu não me criei com Iron e sim com AC/DC, por isso não sinto vontade de comer o Jorginho!


  1. 1 Assanhado « Bloda - O blog do Doda Trackback em março 6, 2008 às 4:55 pm

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s




Fitas pessoais e umas opiniões definitivas incertas. Qualquer coisa, dá um alô no doda.doda@gmail.com

@dodavilhena

Encontre

Arquivão


%d blogueiros gostam disto: