Conan, Corsa e Coruja

Fui um fã mediano de quadrinhos. Sempre li os blockbusters. Na passagem para a maturidade, não fiz a transição para os tais quadrinhos adultos.

Comecei com as Mônicas e Cebolinhas da minha irmã. Eu gostava principalmente do Louco e da dupla Rolo & Tina.

Como era gata a Tina, uma das minhas primeiras musas.

Lá por 1986, não tenho certeza, as revistas do Maurício de Souza mudaram da Abril pra Globo, adotaram a postura politicamente chata e conseguiram, realmente, ficar um saco.

Os amigos já falavam de Homem-Aranha e Super-Homem. Então comecei a ler Marvel e DC.

Dessa última desisti logo, rapidamente formei meu conceito sobre os heróis da DC: um monte de bundas-moles, menos o Batman, desde que não seja interpretado pelo Val Kilmer ou dirigido pelo Joel Schumacher.

Em anos como leitor, comprei centenas de revistas – na época ainda chamadas de revistinhas, pois a Abril, para economizar papel e diminuir o preço final do produto, publicava no Brasil exclusivamente aquele formato brotinho.

Acompanhei muitos heróis, mas meus preferidos eram Hulk, Motoqueiro Fantasma e Conan. Inclusive, as únicas revistas que ainda guardo são justamente as do bárbaro.

Até hoje piro nos desenhos do Jhon Buscema e nas histórias escritas por Roy Thomas, sem falar nas famosas ilustrações de capa do cafonão Boris Vallejo. As mulheres desenhadas por ele eram de outro mundo, tanto que até hoje não cruzei com nenhuma delas na vida real (essa frase foi redigida com trocadilho proposital).

Com recém-adquiridos 18 anos, enquanto cantarolava Tempo Rei, do acústico de Gilberto Gil, sempre presente no toca-fitas do antigo Corsa 95 meio verde, meio azul, realizei a proeza de ignorar um sinal vermelho e atingir a lateral traseira de um Tipo que gostaria apenas de cruzar a rua, mas, graças à minha perícia, terminou beijando calorosamente a bunda de um Chevette estacionado (história a ser contada futuramente).

Com uma deliciosa despesa de três carros amassados para cobrir, as torneiras financeiras paternas que sustentavam este então vagabundo foram fechadas. Antes de apelar para uma solução drástica, que poderia envolver a comercialização de recantos íntimos do meu corpo, preferi buscar soluções alternativas.

A venda de revistas em quadrinhos para um sebo poderia auxiliar o orçamento. Eu possuía centenas delas, quem sabe embolsaria alguns caraminguás.

Reuni o maior número possível de edições sem valor sentimental, o que deve ter resultado em mais de dois terços de todas as minhas revistas. Chutando um valor, digamos que eu esperava ganhar uns 200 reais. Segui para um sebo.

Quando cheguei com minhas pesadas sacolas abarrotadas de heróis, fui recebido por um rapaz com cara de nerd, daqueles que nunca viram uma mulher sem roupa de forma gratuita.  Aparentava ser um pouco mais velho que eu. Expliquei que gostaria de negociar aquelas revistas.

Com um ar que beirava a pedância, ou melhor, pedante mesmo, ele revirou rapidamente minha coleção e decretou:

– Esse material é bem fraco, pago 30 por tudo ou podemos trocar, cinco suas por uma da loja, mas só daquela seção ali, das nacionais comuns.

Lembrando: em valores chutados de hoje, eu imaginava conseguir 200 e recebi uma proposta de 30 ou de 5 pra 1 na troca.

Como 30 reais não mudariam minha vida e aquele monte de revistas não me interessavam mais de qualquer maneira, troquei quase tudo por números do Conan que faltavam na minha coleção, mas não sem antes xingar mentalmente aquele funcionário com todos os adjetivos negativos já inventados na língua portuguesa.

O episódio foi superado, esqueci o pedantismo do rapaz nerd e não guardo mágoa, até mesmo porque os 170 reais a menos que ele me ofereceu devem ter feito grande falta em sua vida.

Ele se tornou dono de uma loja de gibis que foi assaltada, organizou um show de rock que foi um fiasco antes mesmo de ser realizado, ficou devendo deus, meio mundo e mais duas divindades à sua escolha, deu calote na cidade e sumiu.

Mas voltou. Voltou e se meteu novamente na produção roqueira, onde até conseguiu realizar alguns eventos. Quando todos achavam que seus negócios iam bem, iniciou na cidade a divulgação de um show dos chatos do Ludov. Dias antes da apresentação da banda paulistana, sufocado por dívidas, deu no pé com os trocados até então conseguidos com a venda de ingressos antecipados, caloteou a torcida do XV de Pequim e tomou outro chá de sumiço. Recentemente, reencarnou como funcionário de uma franquia de fast food e, provavelmente, aguarda uma nova chance de despontar para o anonimato.

Moral 1: investir em quadrinhos depois dos 15 anos pode lhe render um emprego no McDonald`s.

Moral 2: não conte pra namorada nenhuma que você gosta do Conan.

Moral 3: se escutar Gilberto Gil, não dirija.

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7 Responses to “Conan, Corsa e Coruja”


  1. 1 faneinbox dezembro 5, 2007 às 6:33 pm

    Eu não posso escutar Motorhead e Ac/DC. quase bati 3 vezes. HUAHUAUHAHUUHA

    Sorte minha não ter essa ligação com revistinhas…

    Diga para ele que conhece o passado e troca o silêncio por um ano de fast food grátis
    (aposto que em 3 semanas ele some denovo, mas ta valendo!)

  2. 2 Pedrox dezembro 7, 2007 às 12:21 am

    Rapá, quando eu vi em Salinas eu achei que fosse uma assombração. Nã gostei do sanduíche que ele fez pra mim.

    Estás convocado para o meme dos sofredores, lá no meu blog.

    Abraços.

  3. 3 rafael dezembro 7, 2007 às 9:13 am

    Ele não era dono da loja, era gerente.

    Grandes merdas!!!

    doda: foda-se!

  4. 4 Yvens dezembro 7, 2007 às 10:00 am

    Meu caro, não sei se lembras mas eu era um dos passageiros deste Fiat Tipo preto. A poucos metros do Cosanostra. Lembra? Abs!!

    doda: claro que lembro meu caro, ainda contarei essa história por aqui :-)

  5. 5 Gabriel dezembro 12, 2007 às 7:04 pm

    Cara, o seu blog é tão bom que desanimo de escrever no meu. parabéns.

    peguei seu nome no blog da rachel. abraço.

  6. 6 Iuri dezembro 17, 2007 às 3:08 am

    Eu gosto de Conan ate hj!
    =)


  1. 1 Paciência - Body Art « Bloda - O blog do Doda Trackback em março 26, 2008 às 2:29 pm

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