Bichodomatismo

Acho que todos, em algum momento da vida, já passaram por um ou mais momentos em que foram acometidos pelo bichodomatismo.

O bichodomatismo é aquela síndrome que ataca quando você se depara com uma situação que não faz a mínima idéia de como resolver ou até faz, mas o medo de um possível constrangimento na realização da tarefa é maior, fazendo com que você apele para uma discreta evasão do local ou uma fuga desesperada mesmo.

Boa parte dos exemplos de bichodomatismo ocorrem quando o sujeito está saindo da adolescência e os primeiros problemas burocráticos da vida adulta aparecem.

Banco. Lembra sua primeira vem em um? Seu pai ou alguém que não convém negar um favor mandou você descontar um jurássico cheque. Sim, as pessoas ainda usam cheque. É difícil entender como uns rabiscos podem transformar uma folha de papel em dinheiro, mas enfim, transformam. E aí você precisou entrar na agência, lotada, filas pra todo lado, velhinhas enroladas na operação do caixa eletrônico, motoboys com pilhas de contas a pagar, protestantes de fila reclamando que “só tem dois caixas pra tudo isso de gente” e você lá, sem saber o que fazer, segurando a droga de um cheque com dois riscos diagonais.

“Xiii, tá cruzado”, o protestante da fila olha pro cheque na sua mão e solta o alerta. Você não entende o que ele quis dizer, mas se apavora. Mostrar que não sabe do que ele está falando só vai piorar as coisas porque aí o mala vai montar em cima de você contando casos escabrosos de gente que estava com um cheque igual nas mãos e perdeu um olho ou teve um rabo crescido no alto da bunda por causa disso. Você percebe que a sua vez está chegando, o caixa não dá um sorriso, o que fazer quando chegar sua vez? Entregar o cheque e dizer que quer descontar? Oferecer uma flor, dizer que não sabe de nada, que foi o seu pai que meteu você ali naquela enrascada e que você quer ligar pra sua mãe? Não! O bichodomatismo ataca e você olha pro relógio, finge que esqueceu de qualquer coisa, solta em voz alta um “ah, não acredito, vou ter que voltar em casa!” e sai apressado da fila para voltar somente no dia em que possuir o domínio da operação. Pro seu pai você inventa que o banco estava muito lotado e você desistiu da fila ou que torceu a faringe ao tentar atravessar a rua pronunciando o nome do piloto de Fórmula 1 Heinz-Harald Frentzen cinco vezes bem depressa.

Os exemplos bancários são ricos e fartos, mas o bichodomatismo pode atacar em muitas outras situações: a primeira vez que você precisa pegar um ônibus para o lugar x e no desespero apela para um táxi, o dia em que foi assaltado e desistiu de fazer um B.O. ao se deparar com o ambiente de entrada da delegacia e também aquela ocasião em que um vendedor da Amway ou coisa parecida conseguiu arrancar uma grana sua porque você ficou sem jeito de dizer que não queria aquela porcaria.

Outra curiosidade sobre o bichodomatismo é quando você se vê na situação típica onde a síndrome pode atacar, entra em estado de barata tonta frente ao desafio que se impõe e, contrariando a regra, consegue resolver o problema.

Então você chega em casa ou no trabalho em estado de vitória interna. Tentando não exagerar na pequena alegria que toma conta da sua existência, você conta o que acabou de passar para alguém, esperando algum tipo de reconhecimento ou elogio quem sabe, mas ao ouvir sua história a pessoa se limita a dar um sorriso ou comentar coisas do tipo “é, uma vez também demorei um tempão naquela fila”.

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6 Responses to “Bichodomatismo”


  1. 1 moara fevereiro 20, 2008 às 2:56 pm

    a Lora mandou eu vir aqui ler esse teu texto, porque tinha algo a ver comigo. E é verdade. Já passei e sempre passo por essas situações de bichomatismos.

    :**

    Doda: eita, mas essa lora anda mandona, heim? e tu obedece sem nem dizer ai?

  2. 2 Rodrigo Lupatini fevereiro 20, 2008 às 4:31 pm

    Agora diz pro pessoal.

    Qualquer semelhança com a vida real do autor é mera coincidência?

    HAHAHA

    Doda: lupa, você nem imagina o quanto eu sofro de bichomatismo. outro dia conto da minha primeira vez sozinho no metrô de sampa, em 99, estação sé em horário de pico.

  3. 3 lora fevereiro 21, 2008 às 11:49 am

    Incrível como parece com a Moara, o problema é com ela acontece até hoje e sempre acontecerá.

    :****, querido

  4. 4 eDu_modos fevereiro 21, 2008 às 1:10 pm

    Realmente passamos por inumeras situações desagradáveis, sempre que faço algo pela primeira vez o tal do bichomatismo está lá me aguardando.

  5. 5 Karla Nazareth fevereiro 24, 2008 às 1:36 am

    pois então, preferi a criação nas agências porque posso me isolar do mundo com um fone de ouvido. nada pior do que interagir com clientes e fornecedores. nada pior quando o diretor solta o: “liga pra lá e pergunta”. o bichodomatismo desce e não sai nunca mais.

  6. 6 Patricia Brasil fevereiro 26, 2008 às 9:56 pm

    Quase desisti de comentar aqui porque o tal do bichodomatismo, na sua versão virtual, tava batendo. Mas como gostei muito do post e me identifiquei bastante com ele resolvi enfrentar o problema e não deixar a tal síndrome se instalar. Só não vai esquecer de me parabenizar porque perciso de reforço para continuar enfrentando meus monstros virtuas…hehehehe.


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