Ídolos e admiração

Há uns dias ouvi uma dessas verdades que publicitário adora proclamar em powerpoint para justificar uma idéia.

Diz que agora as pessoas não admiram mais pessoas e sim marcas.

As atitudes com as quais cada um de nós naturalmente se identifica não seriam mais as provenientes dos grandes da raça e sim a das corporações.

Pessoas com a força iconográfica de Che, Marilyn, Lennon ou Churchill – para ficar só alguns do século XX – não seriam mais fabricadas e teriam sido substituídas por Apple, Converse, Nike e MTV.

Como se um iPod pudesse fazer um discurso desses ou um tênis de corrida fosse capaz de protagonizar isso.

Furadíssima, a teoria esqueceu de levar em consideração que desde os anos 80 o mundo passa por um processo – natural eu diria – de segmentação comportamental em qualquer sentido. Tudo, agora e cada vez mais, é nicho, grande ou pequeno, mas nicho.

Então realmente pode ser mais complicado pra alguém alcançar projeção planetária, mas não quer dizer que não alcance, basta analisar a comoção que causam entre seus fãs nomes como Amy Winehouse, Hanna Montana ou Steve Jobs (olha a confusão entre adoração de marca e adoração de ídolo aí). Todos ícones de nichos, seja lá de qual tamanho for esse nicho, mas ícones e de nichos, sim.

(ok, dá pra dizer que boa parte dos ídolos de hoje são fabricados, mas os do passado, em maior ou menor grau, também foram produzidos sob encomenda industrial ou a serviço de uma ideologia política/religiosa qualquer)

E as marcas também despertam amores de – e apenas – em nichos, também enfrentando dificuldades de projeção, assim como os “ícones humanos”. Ou dá pra dizer que o McDonald’s é unanimidade mundial?

Mas sim, e esse tal amor às corporações descrito na teoria publicitária não é nenhuma novidade no mundo.

Há milênios igrejas despertam até muito mais do que amor entre os seus seguidores/consumidores (vai dizer que a Fé não é um negócio dos mais rentáveis desde o começo dos tempos?).

Séculos antes do nome Google ser motivo de declarações apaixonadas, povos diversos já mostraram devoção pelo brasão dos seus exércitos nacionais ou dedicaram vidas às suas bandeiras.

Se agora uma empresa conclui que existe amor do consumidor pelo seu logotipo é um direito dela, assim como também é direito que ela cultive e incentive essa relação.

Mas é uma pretensão safada vir dizer que isso é algo novo ou que essa paixão por marcas substituiu a nossa admiração por “gente igual à gente”.

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2 Responses to “Ídolos e admiração”


  1. 1 Natalia Brabo junho 29, 2008 às 8:05 pm

    Posso estar errada, mas essa discussão tem mais a ver com teoria do poder. Poder de permanência, especificamente. As marcas normalmente têm durado mais tempo no imginário (ou na popular “boca do povo”) do que os novos ídolos. É claro que o McDonalds não é unanimidade, porém tem tudo para manter seu M amarelinho mais tempo no holofote do que a substituível Hanna Montana. Só sei que esse assunto dá caldo. :P

  2. 2 Doda junho 30, 2008 às 1:18 pm

    hmmm, concordo que elas tem o poder pra se manter sim, mas daí a despertar “maior amor” tem uma distância.

    e talvez tenha sido esse poder das corporações que confundiu a cabeça de uns e outros que acabaram por inventar a tal balela que as pessoas admiram mais um logotipo que uma pessoa.

    tanto é cascata que o m amarelinho precisou de 50 anos de investimento insano em comunicação para conseguir onipresença no mundo, a amy só precisou de 2 anos e um caminhão de pó.


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