Num rabo de foguete

Lá na época do barzinho com voz e violão, sempre que o colega do banquinho iniciava os primeiros versos de “O Bêbado e o Equilibrista”, um amigo meu tirava uma verdade do bolso e lembrava a todos os presentes que “essa música foi eleita a terceira mais bonita da MPB em todos os tempos”.

A sentença geralmente provocava um silêncio de admiração na mesa. “É, mas é bonita mesmo, viu”.

Era pronunciada com tanta propriedade que ninguém tinha coragem de perguntar detalhes da eleição. Quem realizou, quem votou e, principalmente, quais outras duas músicas teriam alcançado os primeiros lugares da disputa.

Isso tem mais de 10 anos. Estávamos às vésperas do começo do orgasmo informativo dos dias de hoje.

Não era difícil ler sei lá onde uma listinha qualquer dos melhores de alguma coisa e propalar a informação pelas mesas da vida anos a fio, sem maiores questionamentos ou discordâncias, ainda mais quando o assunto não fazia parte da tríade sagrada das paixões que os pobres diabos consideram indiscutíveis: política, religião e futebol.

Hoje os tempos românticos do conhecimento meia-boca ficaram para trás.

O maior obstáculo sem dúvida é o Google – esse sacana que desmente ou ao menos ajuda a confundir certezas etílicas até então inabaláveis.

Mas a grande inimiga vem chegando aos poucos, dominando mentes e modificando culturas: a discussão.

Agora qualquer abobrinha que se solta parece ter uma caixa de comentários. A vida finalmente virou um fórum. Algumas vezes com a densidade de uma lista de discussão interna de doutores da USP, mas na maioria dos casos na profundidade dos comentários do youtube.

Todos se acostumaram, estão se acostumando ou se acostumarão a opinar, discutir, questionar e falar merda.

Estão perdidas as certezas calhordas, ao menos as desacompanhadas de fundamentos canalhas. No geral isso é bom, mas deve ter muita gente se comendo menos por aí.

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1 Response to “Num rabo de foguete”


  1. 1 acidstickers novembro 11, 2008 às 9:15 am

    a propósito, eu acho que o conhecimento meia-boca tá no auge agora, e não antigamente.

    Doda: eu concordo, este blog é mais uma prova do meioboquismo dos dias de hoje.


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